Noite

é quando os os lobos saem de suas tocas, animais estranhos refugiam-se em cemitérios, andarilhos encostam em algum lugar pois o caminho é impossível de se ver. Noite, os casais se beijam, as mãos afagam partes ocultas pelas roupas, causando arrepios. Vários drinks são ingeridos e substâncias ilícitas surgem como uma nuvem que cobre a lua. Mãos na cintura e um cigarro na boca, a moça está envolvida em roupas pretas e bem maquiada, esperando a hora de atacar, como um lobo na noite em que fugiu para cidade. Noite, os casais saem de seus carros, rumo a restaurantes, pizzarias, boates, motéis, shoppings e teatros. Tudo pode se perder, em contrapartida, tudo pode-se ganhar. Uma jovem de batom vermelho pensa em desaparecer do mundo, pois o mundo em que vive não é como ela sonhou, e a vontade de desaparecer é a única coisa que ela possui. Noite, a música toca nos diferentes cantos da metrópole e um celular toca no fundo da bolsa, um convite para perversão. Uma fogueira é acesa num canto distante, jovens sentados ao redor da chama, contando histórias de terror e histórias de vida, experiências vividas, decepções e um motivo que os faça manter o foco no fogo. De repente, uma matilha de lobos acha o acampamento e destrói tudo que vê pela frente, à procura de carne. Movidos pelo cheiro da fumaça e de alimento posto ao fogo, os lobos seguem em disparada rumo àquele círculo de magia e contradições. Enquanto isso a jovem bem maquiada responde a ligação e diz que já está a caminho, põe seu salto 15 e retoca o lápis do olho; as danceterias e baladas estão cheias de pessoas vazias, os bares servem de consolo para aqueles que estão cansados da rotina semanal, para aqueles que sofreram e sofrem de uma desilusão amorosa, ou para aqueles que não quiseram ficar em casa assistindo ao filme em casa, e enchendo as mãos de manteiga da pipoca; camas dos motéis balançando enquanto casais se atritam num rito animal; restaurantes e pizzarias estão cheios de pessoas abastadas ou simplesmente quem está com preguiça de preparar uma refeição em casa; shoppings bombam, cheios de gente querendo mostrar o que não tem; teatros cheios de pessoas querendo apreciar as máscaras, derrubar as próprias, ver a máscara dos outros caírem. Feito todo o estrago, os lobos já satisfeitos levam o que sobrou para suas tocas, e a moça maquiada recebe uma rosa, um chamego, uma mão alheia na cintura e um beijo. O mundo fez sentido para ela pela primeira vez, a vontade de desaparecer desapareceu. Voltou para casa contente e encontrou seus lobos adormecidos  e alguns pedaços de tecido humano nas pequenas montanhas e nos jardins. Tudo acontece na noite, e nem sempre ela termina quando amanhece o dia.

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Do outro lado das paredes

A gente nunca sabe o que acontece do outro lado das paredes. Enquanto uns dormem para o descanso do corpo, outros dormem para o repouso da alma. Independente de quem seja, os jornais não param de circular de mão em mão, os noticiários não param de divulgar, o mundo continua num giro constante, com ou sem a presença do fantoche.

Fechou o diário de capa preta, olhou para o quadro na cabeceira da mesa, virou todo copo de whisky. Estava pronto. Pegou maleta, chaves, utensílios, tudo que precisava. A estação do metrô estava cheia, como sempre. Apressou-se para arranjar uma brecha no das 6…

Brincou com o vento enquanto este fazia as papeletas voarem, enquanto os cabelo da madame de logo ali se contorciam, esvoaçados. Lembrou que, com o vento, surge tornado, voa aeroplano, poliniza flores.

Sentia imensa ira, mas não sabia decerto o motivo. Sequer sabia da ira, tomou posse dele silenciosamente. Apresentou um projeto, recebeu alguns aplausos, alguns olhares desconfiados também. Já no fim do expediente, não mais que de repente, lembrou-se que estava atrasado para um jantar com uma companheira de escritório. Banhou-se como quem purifica a alma, e ao mesmo tempo, refletiu sobre os desertos mais quentes, ou mesmo quem não tem um dedinho de água para refrescar-se.

Demorou 40, em vez de 10 minutos debaixo do chuveiro. Enfim saiu. Jantar, vinho tinto do Porto, alguns flertes. Flores à mesa, juntamente com um cardápio cortês e requintado. Algumas velas.

Adormecera, após longa estadia no aconchego cutâneo feminino alheio. Descobrira que, toda parafernália ocorrida, era um pequeníssimo e meticuloso projetor de cinema em sua mente. Pra ele, um curta metragem ; que coube a si mesmo dar o nome de lembrança, talvez até sonho ; para o universo em si, apenas alguns trechinhos a mais no longa-longa-longa³³³³³ metragem, que, devagar apressado, vai passeando vazio afora.