Muros

Caminho pelas ruas desertas da cidade com o coração dividido ao meio. Metade da parte que quer e a outra metade que tem medo de ser atingida novamente. Os dias vem e vão, e nenhum dia parece ser diferente do outro. Como se fossem produtos de longa escala feitos numa fábrica clandestina. A brisa quente à noite e durante o dia, anuncia que um verão não vai tardar a aparecer. O sol escaldante arde a pele, e tenta cicatrizar alguns ferimentos que não saram jamais. O medo já não assusta, mas aterroriza e também faz sorrir. O medo de perder algo que nunca se teve, e que se teve na imaginação por apenas algum momento. Fantasmas de alguém que esteve ali. Os pensamentos vagam como buzinas de carros na avenida. Olhos nos olhos, o barulho já parece distante dali. Toque, segredos e suspiros se misturam como um Manguebeat pernambucano. Meus sonhos de pierrot em degradé. Minhas ideias malucas em Si Bemol. A vida na cidade tem seus trejeitos. Em cada edifício uma tendência surge. Em cada esquina uma ideia morre. Os gatos correm pelos muros, me pergunto o que eles estão fazendo por ali. Visto de cima tudo parece formiguinhas enfileiradas. Visto de longe, tudo parece alcançar o horizonte. Visto de perto, muitas coisas ganham ou perdem o encanto. Viajo com cartas na mão, naipes diferentes e sequências fora de ordem. Passos descompassados que tentam desviar dos buracos. Cada dia tem sido uma viagem só de ida, mas quando chega a noite desejos desejam que o dia possa voltar. E não volta mais. Palavras perdidas ao vento, nem tudo que vai encontra o que deixou.