Contratempo

Passa o tempo e com o passar do tempo vem as lembranças; com a nostalgia vem a vontade de voltar no tempo, mas só em alguns poucos momentos. No livro da vida, bem que poderíamos pular pra parte onde todos nossos problemas se resolvem e todos nossos sonhos se realizam. Mas felicidade, temos que saber, é passo a passo. Dia a dia. Tem que querer, tem que lutar. E também um pouco de sorte. Mas com as duas primeiras características, o universo parece começar a conspirar a favor. Brisa passageira, estímulo psíquico levado pelo vento. Porém tudo isso não basta, se só isso bastasse seria fácil até demais. Tem a falta de tempo, as distâncias que não se medem pelo diálogo, e sim pela falta de interpretação. Todo mundo fala tanto, mas tão pouca gente se entende. Longe para mim é perto. Quem vive perto o suficiente é que só vejo distante. E que continue assim. “O essencial é invisível aos olhos.”

Trechos de ‘Teatro Completo’ – Parte 2

ARETUSA (Lentamente.) – Juro que nunca mais vou amar ninguém. Nunca mais vou me ligar a ninguém. Nunca mais. Eu acabo destruindo tudo que toco. (Página 124.)

RENATO – Talvez Renato a amasse, mas de longe, como às vezes amamos o que é mais oposto, mais diferente de nós. (Página 126.)

ÚRSULA (Para a boneca.) – Tanto tempo. Tudo faz tanto, tanto tempo. Hoje é como se fosse outrora. E nunca mais outra vez. (Página 170.)

NOSTÁLGIO – Sou aquilo que foi e não volta. Tudo aquilo que persiste no coração dos mortais, apesar das guerras, das pestes. Sou o que resta na memória, além da passagem vertiginosa e implacável do Tempo. (Página 191.)

CARMEM – Faz tanto tempo. Eu não vou, eu fico aqui. Eu desisto, para sempre eu desisto, amém. Eu quero o que se perdeu. Eu quero aquilo que conheço, mesmo que não exista mais. Não quero esse lugar para onde você vai, e que nem sei se existe. (Página 213.)

 

ATOR (Mais sério.) – Quando represento, eu continuo sendo eu, mas também, ao mesmo tempo, passo a ser um outro. Eu não seria um ator se não conseguisse ser também esse outro. E não estou falando do outro que me assiste, embora eu também seja esse, porque ele sempre se vê em mim, mesmo quando não gosta do que vê. Falo principalmente daquele outro em que eu me torno, que eu incorporo, que eu me transformo quando estou sendo um ator. O personagem, é dele que eu falo. Um ator não é um ator sem um personagem. (Pausa, confuso.) Bom, então, agora, aqui… será que eu não sou um ator? Será que eu não sou eu? Será que eu não sou nada, meu Deus? Será que estou muito chato? Será que estou pirando? Onde está o personagem? (Página 222.)

 

MIGUEL – Enfim só. Longe de toda essa loucura, livre desse pesadelo que parecia sem fim. Hoje foi definitivamente o último desses… Quantos anos mesmo? Trinta, sei lá, trinta e tantos, trinta e muitos. Intermináveis anos. Eu até desisti de contar. Parecia que o tempo não passava nunca. (Noutro tom.) Mas passou. O tempo sempre passa. Essa é  única certeza que a gente tem. Fora a morte, claro. (Animado.) Mas hoje não quero pensar na morte. Quero pensar é na vida. Na minha nova vida. (Página 223.)