When it rains it pours

”Last night I dreamed I was you.”

I was walking through a thematic park with roller coasters and white shoes. The sun was high and the weather was hot. I could see on other people eyes that I had something in me, like a spirit or a ghost of you. You were happy as everyone. Everything was so vivid and clear, I couldn’t notice if was not for the people stares. There was a time that life was so alive. There was a time that voices could keep me warm at night. Which or which or who is who? I am me or who are you? Electric forces always go into two different directions, positive or negative. I was thunder, you were lightning. Sparks between the two forces became fire and got ourselves burned into the sky. There is a place that is only four hundred miles away. A place where the road is all covered in rain and there is something hidden in the water. How many times have you crossed that bridge? You see me but I don’t see you, we both have someone now. The ghost of you in me sees the happiness in you, and perhaps I teached something for you. You were a sister to me and I was a brother for you, as simple as it looks, family is more complicated than it seems. There are things which are better left unsaid, and maybe a picture is not the best way to say goodbye to someone. Last night I dreamed I was you, as you were covered in blanks to be warm at night. I am all that is lost and don’t want to be found. I am all that is forgotten and forever. You will always be the sister in me. Wish I could be more than a ghost in you.

 

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Redemoinho

As vidas e as mentes dos seres humanos não passam de grandes redemoinhos. Não há questão de ser, se não entender e ver para crer. Todo pensamento é um mecanismo em intensa atividade cerebral, igual a uma fábrica de carros que aos poucos troca a força braçal pela inteligência dos robôs. Cada neurônio é uma célula distante que voa com o tempo, e vai pra tão longe. Tantas sintaxes entre a ponta de um e o começo do outro. Milésimos de segundo. O ser humano tenta ter razões que a própria razão desconhece. Ah, o tempo, tudo não passa de um mero gracejo do tempo. Quando percebem que teria dado tempo, já foi tarde demais.

A mente de um ser humano é doentia às vezes, e disso tenho medo. Medo de que o medo seja também um redemoinho.

Muros

Caminho pelas ruas desertas da cidade com o coração dividido ao meio. Metade da parte que quer e a outra metade que tem medo de ser atingida novamente. Os dias vem e vão, e nenhum dia parece ser diferente do outro. Como se fossem produtos de longa escala feitos numa fábrica clandestina. A brisa quente à noite e durante o dia, anuncia que um verão não vai tardar a aparecer. O sol escaldante arde a pele, e tenta cicatrizar alguns ferimentos que não saram jamais. O medo já não assusta, mas aterroriza e também faz sorrir. O medo de perder algo que nunca se teve, e que se teve na imaginação por apenas algum momento. Fantasmas de alguém que esteve ali. Os pensamentos vagam como buzinas de carros na avenida. Olhos nos olhos, o barulho já parece distante dali. Toque, segredos e suspiros se misturam como um Manguebeat pernambucano. Meus sonhos de pierrot em degradé. Minhas ideias malucas em Si Bemol. A vida na cidade tem seus trejeitos. Em cada edifício uma tendência surge. Em cada esquina uma ideia morre. Os gatos correm pelos muros, me pergunto o que eles estão fazendo por ali. Visto de cima tudo parece formiguinhas enfileiradas. Visto de longe, tudo parece alcançar o horizonte. Visto de perto, muitas coisas ganham ou perdem o encanto. Viajo com cartas na mão, naipes diferentes e sequências fora de ordem. Passos descompassados que tentam desviar dos buracos. Cada dia tem sido uma viagem só de ida, mas quando chega a noite desejos desejam que o dia possa voltar. E não volta mais. Palavras perdidas ao vento, nem tudo que vai encontra o que deixou.

Demons

Sons no espaço sideral, onde ninguém pode ouvir e a poeira cósmica voa sem direção. E foi pra lá. Brisa leve passageira no corredor dos viajantes do destino. Uma melodia de piano toca em algum lugar da lua, enquanto nós terráqueos procuramos dar nome às estrelas. A água da chuva molha a planta e enche a rua de lamaceiro. Pessoas andam pelas calçadas com medo de pisar em falso e prender o pé no bueiro. Na copa das árvores, gotículas caem como um sopro de vida e dão vida à tudo que se encontra no solo. Memórias distantes que ligam perguntando se está tudo bem, e com você também. Peregrinos na floresta de elevação, aqui não é morada pro que você tem, muito menos para o seu dinheiro. Templo sagrado, benze a reza, reza todo mundo a fim de obter a bênção. A paz ainda existe e todos viajantes do destino procuram por ela, sem saber que ela está mais perto deles do que eles imaginam. De dentro pra fora, saindo pela respiração. Um foguete rumo ao céu em direção a lugar nenhum.

Coqueiro

A realidade espeta a sola dos pés. Usar sapatos nem sempre é suficiente. Cada esquina guarda uma masmorra esperando para aprisionar alguém. Em cada rosto uma história, em cada olhar um desejo. Relapso. Andar dez passos a frente e onze passos pra trás. O frio consome o resto de energia que sobra no corpo. Faz frio aqui dentro, e os dias tem passado devagar. Escrever já não é quase tão automático quanto antes, e como uma tocha quase apagando, difícil tentar erguer a chama. A missão cumprida diária já não satisfaz, e o café já não faz mais efeito. A minha mente é um hotel que ninguém visita. O dever me chama, e se a culpa cai sobre mim, uma lobotomia diz que minha consciência está tranquila. O destino mostra escolhas a se tomar, e o caminho a seguir é estreito e sinuoso. Caos. Descontrole. O mundo e a mente em desordem. Monótono. Dia a dia o óbvio fica mais óbvio, e suicídio é tentar entender; que o que eu acho que é bom, nem sempre é tão bom assim. Cada qual na sua loucura, o hospício fica logo ali no fim da rua. Os policiais vagam pelas ruas, fingindo proteger a todos, quando não conseguem proteger a eles mesmos. Cidade grande. Ilusão maior ainda. Rotina cansativa, garrafas cheias de recados vão dentro do barco. Li um deles escrito assim: amar é uma ilha. O que pode parecer o fim é apenas o começo. O universo e seus poderes andam em círculos.

Divisível

Por dois ou por três. Múltiplo de seis, número primo. Sequência númerica e combinação de números. Álgebra linear. Contabilidade. Geometria analítica. Análise combinatória. Teoria dos jogos. Geometria espacial. Matemática financeira. Estatística. Fórmula de Pitágoras. Física quântica. Hidrostática. Mecânica. Eletrostática. Dinâmica. Eletrônica. Cinemática. Calorimetria. Termodinâmica. Equações. Fórmulas. Subtração. Multiplicação. Divisão. Números e mais números. Fazer contas nem sempre é fácil. Menos fácil ainda é aprender, que um mais um nem sempre é dois. Ainda mais quando o terceiro quer roubar um lugar que pertence ao primeiro, ou ao segundo. Se envolver se torna perigoso, quando há interesse de terceiros. A fórmula é simples, difícil é saber como aplicar numa situação real. Somar ou sumir? Eis a questão.

Segredo

Eu espio pela janela só para saber se tem alguém de olho. Fujo pelos canteiros e passo na frente da sua casa, aceno, chamo e você não responde. Seu olhar são apenas pitangas no jardim. E seu olhar parecia um pouco com o meu, afastado de tudo e morando aqui. Menina, o mundo samba quando você samba também. Seus instintos são segredos que desafiam até os meus medos. Minha mão junto da sua nos leva a lugares distantes daqui, e o universo é apenas uma ilha. Faço planos, e meus desejos são tirados de mim. Se a fé move montanhas, esqueceram de nos dizer quais. Os piores inimigos são aqueles que estão mais perto de ti, fingindo qualquer tipo de afeição, só para saber os seus gostos e certas fraquezas, para então, usá-las contra você. De tudo que é mais sagrado, eu quero para a vida inteira. Mas se uma noite eu me esquecer de pecar, fica entre nós o segredo.

Ampulheta

Num relacionamento, seja ele afetivo ou amoroso, muitas vezes cria-se uma ilusão. Sempre acontece de querermos tanto alguma coisa, que a idealizamos. Nos apegamos à ideia de ter o objeto afeiçoado, não ao objeto em si. Assim como bebidas, sentimentos tem que ser destilados, filtrados. Difícil é distinguir quando o muito é pouco e vice-versa. O ponto ideal para mim é distinto do ponto ideal da maioria das pessoas. O perfume para mim, é veneno para você. Tudo depende da fragância. Pensamentos são labirintos, e as dúvidas são um minotauro. Ficar e correr, voar pra longe, ou simplesmente fugir. O livre arbítrio é universal, mas a solução é única e de cada um. Às vezes o passado vem atormentar o presente, precisando apenas do momento errado para fazê-lo. Às vezes, o destino nos reserva algumas surpresas. Às vezes, melhores surpresas são aquelas que fazemos para nós mesmos. Nos prendemos tanto a certos momentos, que essa prisão acaba libertando-os, sem percebermos. Lamentava muito certas perdas, mas cada passo que dei a frente, deixei uma saudade e um nevoeiro pra trás. A vida é só um jogo de escolhas que precisa de um pouco de sorte. Ganha quem sabe perder. E quem perde, ganha por outro lado. Ganha quem soube esquecer. Relevar. Perde quem não soube superar. Quando se luta muito pelo que vem logo à frente, tudo que ficou pra trás torna-se apenas uma folha que é levada pelo vento. Como uma garrafa vazia num balcão de bar. Vazia, e tão cheia de si.

Inércia

Sabe quando você quer parar, mas você simplesmente continua? Tudo te motiva a desistir, mas você segue firme e forte na luta. Quando você passa por tanta coisa ruim e quando acontece outra, você até dá risada. A vida me bateu muito, calejou muito a alma e a mente. As pessoas me disseram que eu não duraria um ano no mundo real; eu digo que elas não durariam uma semana no meu. Não posso (ou não consigo), descrever a sensação de ter que acordar todos os dias, sabendo que todos seus sonhos foram arrancados de você. Ou pior, escaparam de você. Nunca tive sorte no amor, nem com amizades. Erraram muito mais comigo do que errei, mas não guardo ressentimentos de ninguém. O meu caminho é ser só. Antes eu tinha medo do que poderia acontecer, caso eu não conseguisse fazer tudo que eu sempre quis fazer. Hoje, aprendi que os espinhos vem primeiro, para depois a vida te coroar com rosas, ou mais espinhos. O destino realmente brinca com as pessoas. O meu destino é uma página cheia de rabiscos e lacunas levadas pelo vento. Voou pra longe.

Poder

O poder de uma palavra é algo que assusta até a força do silêncio. Colateral. O mundo anda tão complicado, não passamos de agentes temporários sofrendo efeitos colaterais. A violências invade as ruas, não são mais os ladrões que estão atrás da grades. Enquanto o humano só pensar em dinheiro, tudo vai ser feito para omitir a verdade. A verdade é que ninguém gosta de ouvir a verdade. Condenam a mentira, mas deliciam-se com seu poder manipulador, sem perceber. Amor virou fábula, coisa de filme, livro e novela. Contrato social entre dois indivíduos onde um oferece algo que o outro precisa. Às vezes nem isso, simplesmente pelo fato das duas pessoas terem medo de ficarem sozinhas, acabam ficando juntas. Ou pior, pelo dinheiro, pelo tão sonhado status social. Se for para ser assim, eu prefiro ficar só. Mesmo que doa em silêncio e ninguém saiba da minha dor. A minha força se encontra na solidão, ela tem imenso poder e dá olhos de águia. A percepção é uma navalha que corta a pele e sangra suavemente. As mentiras alheias acabam confundindo as nossas verdades. Nossas palavras são objetos de armamento, para serem usadas contra nós quando menos esperamos. Mil acertos, nenhum elogio. Um erro, mil condenações. Assim que a vida é, traiçoeira como uma naja pronta para dar o bote certeiro. Fria como o inverno russo. Quente como o deserto do Saara. Nós nunca sabemos quando estão tramando contra nós, até o momento que tudo aparece límpido, como a água do mar nos paraísos nordestinos. As pessoas acreditam no que querem acreditar, acreditam no que lhes é mais conveniente. Mais vantajoso e menos adverso, quase sempre mais contraditório. Odeio quem rouba meu riso à toa, rouba meu sorriso como um ladrão de almas que some para sempre. Sem dar satisfações e sem dizer adeus. Não é justo alguém tirar o melhor de ti e depois partir. É como se alguém arrancasse o melhor de ti e deixasse o resto, menos conhecido, para trás. O que sobra de mim é só o trapo, a linha sem o tricô e a agulha. O retalho sem colcha. O olhar sem brilho, que vê mas não olha. O mundo gira e tira tudo do lugar. Canso-me de diálogos sem começo nem fim, diálogos que apenas seguem sem seguir uma lógica concreta. Canso-me ainda mais fazer uma pessoa se sentir o foco da atenção, alguém que eu sempre tenho que lançar alguma palavra, senão o silêncio se faz mortal e constante. A gente não devia ser obrigado a correr atrás, mas corremos e sabemos que só assim algumas relações permanecem vivas. Aos trancos e barrancos, porém vivas. É tão raro conhecer alguém que não tenha orgulho de algo que nem existe, que se deleite com a conversa mais fútil do mundo. Num café, num banco de praça, numa sala, na rua, seja lá onde for. Pessoas simples, de alma pura e cristalina. Pessoas que tem o poder de mudar o mundo. Mas tem medo, assim como eu, de que todo esse esforço seja inútil. Porque querendo ou não, ser diferente cansa, mas a vontade de não continuar igual à massa predominante ainda é maior. Porque cansa quebrar a cara com gente que não juntaria um caco por nós. Pois no fim, tudo o que nos resta é a morte. E a morte tem imenso poder, muda a vida sem querer, programando o inevitável para mais cedo ou mais tarde.

”Cansado de coisas que só começam, hoje eu só queria que algo continuasse.”

Abismo

“Whoever fights monsters should see to it that in the process he does not become a monster. And when you look into the abyss, the abyss also looks into you.”

 

Nietzsche tinha razão. O cuidado nem sempre é pouco quando se luta com monstros, sejam eles pessoas, atitudes, fatos e o pior de todos os monstros: o pensamento. Dele surgem todas as nossas emoções e insatisfações com o pequeno inferno que nos circunda. Quando passei a adentrar certos territórios psicológicos que não me pertenciam, eu olhei para o abismo e ele também olhou para mim. A vista era bonita ali, num silêncio absoluto e mortal. No menor deslize, eu escorregaria no escuro sem ter nenhum galho para tentar me equilibrar. Dizem que veneno só faz mal se engolir, mas esquecem de mencionar que há venenos que matam só por estar lançados no ar. Não falo de drogas, nem coisas do tipo, falo de fumaça, fábrica, automóvel e mentiras que pairam no ar. Nos pequenos detalhes o pequeno nó que segura a máscara vai afrouxando e a verdade finalmente aparece. Depois de um certo tempo, a gente vai aprendendo as malícias da vida e seus incríveis traquejos. Percebe quem presta e quem não presta só no jeito de falar, principalmente no jeito de agir. Sem nem conviver junto. Tem que saber estar perto mesmo estando longe. Você deve estar me perguntando: como? Deixa para um outro texto. Para mim o certo e o errado nunca existiram, só existem dúvidas e circunstâncias. Porém sei o que para mim faz bem e que não me deixa dúvida alguma. Dizem que a ocasião faz o ladrão. Digo que existe uma tendência a ser feito de bobo o coração. Na primeira é erro dos outros, na segunda é deles também, mas principalmente nosso. Por se deixar levar pelas circunstâncias e desejos profundos , tão quanto um abismo. Tem gente que nasce mesmo do avesso, no avesso fica até o resto dos dias. Tem gente que é cabeça dura mesmo, acreditando que seu mundo de fantasia vai ser sempre real e nunca questionável por ninguém. Com gente assim só existe salvação se houver um milagre. Esse milagre não vem do céu, nem da ciência. O castelo de cartas cai e nunca mais se sabe onde foi o começo. O fim sempre gera um novo começo e vice-versa. Acontecem coisas teoricamente impossíveis, inimagináveis, jamais imaginadas. O milagre acontece. Ninguém sabe o que aconteceu e como aconteceu. O abismo e um monstro vistos de uma outra dimensão. Trauma, cura, abrir os olhos, evitar o inevitável, seja lá o que for. Um milagre só precisa que alguém acredite nele. Vez em quando eles acontecem e ninguém ficou sabendo. Antes de sair para o mundo, já tinha começado dentro de nós. Sem pedir, pensar, nem acreditar. Uma bandeira branca simbolizando a paz, que não é uma escolha e sim uma responsabilidade. O fim do abismo às vezes só muda de lugar para que possa haver um outro. Destino ou circunstâncias ninguém saberia dizer, só temos que estar preparados.

Hot Like Fire

Nas profundezas da noite se escondem os meus medos, meus segredos, meus melhores dias. Caminho só e distante na noite fria, de vez em quando passa um carro me encarando, mas eu estou estranhamente seguro ali. Piso em falso, quase caio em um buraco na grama, dou risada e sigo adiante. Nem me lembro qual foi a última vez que eu bebi, nem me lembro mais quando andei acompanhado nas noites. De tanto andar só, a noite se transformou em mim, e eu me transformei nela. Cúmplices perfeitos de crimes e delitos públicos que alguns alguéns viram. Tão sós em nós mesmos. Eu e a noite. A noite e eu. A cidade sempre me pareceu mais interessante quando as luzes dos prédios e outros lugares ficam acesas. Vez em quando escuto orgias no escuro, gritos, sussurros, tapas e gemidos. Rio freneticamente me lembrando de ti. Você e suas orgias. Suas orgias e você. Cúmplices desde sempre. Selvagem, indomável e maluca. Nem deus sabe do que você é capaz, meu amor. Você e a noite. Amigas de longa data. Quase um ano passou e a minha esquina ainda não cruzou com a sua, e já te procurei em todos os bares da cidade. Você não estava ali, meu amor. Por onde andas? Onde andas que já não te percebo mais?

Um whisky com gelo por favor. Mais um para a ruiva que acabou de entrar. Por minha conta. O doze anos desce trincando o estômago, e minha mente grita por ti. Mão na coxa, zíper que se abre. Onde é que eu fui me meter. Literalmente. O sexo dela é fogo e o meu é oxigênio. Um alimenta e aumenta ao outro. Qual é o seu nome? – perguntei. Eu sou a dama da noite, o pesadelo dos amores perdidos. – ela respondeu. Beijo com gosto de beijo não dado. Disseram-me que essa droga vicia, essa tal de abstinência amorosa causa até anorexia. Meu amor, o que eu posso fazer se depois de você, as outras são só as outras? Você é dona desse jogo que eu já não jogo mais. As regras são suas e as jogadas já são mais minhas. Xeque mate no xadrez, o rei sem ter pra onde fugir. Pra onde é que eu vou se não pra onde o coração mandar? E foi lá pra longe.

Tão próxima, sem seu endereço. A vista do seu prédio é quente como o cobertor que te esquenta solenemente. Fria como a brisa que sopra quando você chega de madrugada. Kiss, kiss, kiss, and kiss and kiss. Saudade é parte do processo de seguir em frente, mas de que adianta dar 2 passos a frente e outros 10 pra trás. Eu sabia que você era problema. Gostava do erro mais do que do acerto. Sem solução. Estratagema mirabolante que até hoje ninguém soube resolver. Ela sabe ser quente como ninguém. Quente como o fogo. A paixão arde dentro dela, como o sol que queima no verão. As amigas não sabem, os homens não percebem. Um olhar diz muito mais palavras do que as pessoas costumam escrever. Quem é esse sujeito que conquistou meu amor? Seja feliz meu amor, e quente como o fogo. Para sempre e depois.

E com ela foi assim: amor antes da paixão. Fogueira antes da chama. A chama apagou tudo que a fogueira não quis deixar apagar.

Pacífico

Dois estranhos no barco fugindo numa embarcação, ele não a conhece, ela não o conhece. Atravessam o oceano Atlântico e não dizem sequer uma palavra. Fazem anotações de bordo a cada coisa diferente que enxergam, a cada olhar discreto que trocam. O navio acaba tendo diversos problemas, e uma viagem que normalmente duraria 1 mês, acabou durando 10. Dois corpos se veem e não se enxergam, pensam mas não refletem, falam e não dizem. No meio do oceano não havia ninguém além deles. 30 e poucos passageiros estranhos, e nenhum dos dois sabia o que estava fazendo ali. No começo dava uma certa maresia, uma vontade de se jogar naquela água gelada e morrer de frio, sem avisar a ninguém. Chovia, nevava, e eles permaneciam ali, imóveis. Não existia nenhum relógio, e eles eram escravos do tempo. Escreveram muito. Ele muito mais do que ela. Ela preferia ficar entretida com seus pensamentos, muda e mal humorada. Ele não gostava de guardar nem os lápis de cor, quem dirá o que sentia. Sangrava tudo no papel, como se a vida dele dependesse disso. Dizem que é preciso entender o silêncio para depois compreender as vozes, mas no caso deles o silêncio era sagrado. Um entendia ao outro sem que dissesse uma palavra. Quando um lançava um olhar, o outro virava distraído, fingindo estar focado em algo que não estava presente ali, e vice-versa. A viagem que começou no inverno terminou no outono. Hoje, eles estão quase desembarcando outra vez. Ele com seus escritos, ela com suas jaquetas de frio e sapatos. O inverno está chegando aos poucos, outra vez. Embarcarão de novo, só que dessa vez em barcos diferentes. Ela, para esquecer de vez. Ele, para nunca mais voltar.

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Heroína

Você é luz depois do caos. Sol depois da chuva. Verão depois do inverno. Antídoto depois do veneno. Paz depois da guerra. Cura para o meu vício. O melhor de mim eu só soube depois de mostrar a você. Tenho medo de estar errado sobre nós, mas que culpa tenho se é tu que invades meus sonhos todas as noites? Você é o mais perfeito enigma que eu já encontrei, e a resposta não precisa estar subentendida. Não tive escolha, a não ser me entregar por completo. O meu sistema nervoso grita quando você se vai, e o cardíaco quase entra em pane. O mundo gira mais devagar quando estamos juntos distantes, e eu não me lembro de um resquício de felicidade antes de ter você aqui. Vários olhares atraentes me olham, mas só tenho olhos para você. Monopoliza meu carinho na tua atenção. Presta atenção no que diz a minha voz rouca e perdida. Só não se perca na minha música. Esquece o teu sorriso no meu travesseiro. Tranca teu abraço num baú que só nós dois temos as chaves. Lembre de mim quando menos merecer, pois é quando mais tu precisas de mim. Eu que tenho quase tudo, desaprendi como era ter alguém. Você vai, mas sempre volta para mim. Tudo parece não fazer sentido, e estranho seria se tivesse algum. Olhos fechados, frenesi sentimental que vai até você. Você disse tudo que eu tinha medo de ouvir, e depois de correr perigo, me sinto plenamente dono de mim. Seguro. Seguimos nossos passos em estradas diferentes, esperando que um dia nossos caminhos sejam um só. Será. Somos um só caminho.

Pequim

Qual o valor de uma promessa? O famoso “para sempre” não dura mais que um instante. E o instante sempre passa por aqui. Paixão também sempre passa. Amor passarinho. Voa pra longe sem saber do que está fugindo. Difícil é querer dizer sem saber o que está sentindo. Progredir sabendo que está regredindo. Esconder um sentimento sabendo que está sentindo. Sorrir para o mundo sabendo que ele não está sorrindo. Fingir o riso quando estão rindo. Ver o mundo acabando. Saber que estão te enganando. O amor se comprando. A verdade rareando. A fé se perdendo.

Post-mortem

A morte sempre tem histórias para contar, e ela sempre diz olá. De vez em quando aqui, vez em quando acolá. Tudo ficou escuro, e o olhos se fechavam e piscavam em pequenos pontos brancos. Distantes. O coração diminuiu o ritmo, a pressão arterial e a oxigenação do corpo idem. O sal e o açúcar entraram em conflito com o líquido vermelho universal. Os anjos com suas áureas douradas tocavam harpas desesperadamente. Um protegido dos céus estava se despedindo da vida, sem passar pelo juízo final. Os feitos em vida talvez pesariam para o lado oposto, subterrâneo. De um jeito ou de outro, as canoas de ceifeiros aguardavam miraculosamente a próxima vítima. Silêncio, descrença e um cintilo de fé. Uma combinação não muito agradável para quem desejava atravessar os portões brancos de Éden. Gritaria, semi-infartos. Pessoas desesperadas. Telefonemas. Por um momento o mundo havia acabado, e a pergunta pairava no ar: será isso que resta depois do fim? Um frio aparentemente eterno, vazio de almas, a libertação e a remissão de todos pecados. Liberdade para ir e vir no meio do nada. Todas memórias desaparecendo do mapa. Toda vivência e histórias de vida indo para o subconsciente de uma outra memória. Uma outra memória que já não se encontrava mais ali. O pensamento criador tinha criado seu próprio fim. Irônico e ao mesmo tempo supérfluo. Indigente. Espamos involuntários numa cadeira cinza. Gotas de sangue recém caídas após o choque com a haste de ferro. Tudo isso, sem perceber. Mas depois, perverso, e impossível de não virar uma lembrança. Até que o buraco negro de pesadelos reais e límpidos acabou; pôde fugir da morte e não morrer ali mesmo, sonhando com a vida. A morte pareceu eterna ali, e, por um instante, pensou que fosse ir embora de sua coexistência. Sem chama, sem vento. Um sopro de vida, que quase esqueceu de dizer adeus.

Antes de dormir (sono da Lua e do Sol)

Antes de dormir, pra onde vão seus pensamentos? Em quem você pensa? No que você pensa?

Uns fazem resumos dos dias, outros traçam planos para o dia seguinte. Eu lembro do que ainda vai passar. (Re)vivo o que já foi, e esqueço o que ainda será. Os meus pensamentos são planetas distantes, e ninguém os visita. Os seus pensamentos são planetas ainda mais distantes, e deixam o céu cheio de estrelas. Em cada universo paralelo, as órbitas dos meus planetas são as mesmas dos teus. Fundem-se e formam uma coisa só. Cada estrela cadente é um pedido em forma de meteorito. Eu sempre peço. No eclipse, o Sol e a Lua se juntam no céu, como corpo e alma. Mente e coração. Fé e destino. Quem sabe um dia nossos destinos se cruzem, e formem um único destino na mesma direção. Em meio à tanta astronomia, o espaço sideral remete ao amor; sobre o qual eu não sei não falar. É algo que está lapidado dentro de mim, para sempre. Para mim, amor é quando o Sol e a Lua tem o universo inteiro para observar, e decidem olhar a imensidão do espaço no mesmo campo de visão. Ele e Ela, no eclipse. Antes de dormir eu penso em coisas assim. Penso também em como seria bom ter alguém para dividir o meu universo inteiro.

Reinado

Acredito que cada pessoa tem o seu valor, e ao contrário do que muitos imaginam, enxergo que algumas coisas acontecem sim, por acaso. Não há nada que possa ser feito a respeito, pois, como o próprio nome já diz, é acaso. Acredito que cada pessoa leva um pouco da gente, acrescenta um pouco em nós. Se ensina alguma lição,cabe a cada um dizer. Ao contrário do que o digníssimo Caio F. escreveu, penso que às vezes o que é verdadeiro não fica, dá lugar para outra coisa ou alguém ficar. Deixa de estar. Fica o que tiver que ficar. Dá lugar ao que não souber mais nos agregar. Não muito tempo atrás eu pensava que as pessoas não são substituíveis, mas são. Momentos são inesquecíveis, mas podem ser substituídos também, por outros momentos, e outras lembranças. Não pense você que não te substituiriam caso conhecessem alguém mais simpático(a), rico(a), bonito(a), atraente, seja lá qual for o adjetivo. Algumas pessoas fariam isso na primeira oportunidade. Acredito que cada pessoa se aproxima da outra por algo em comum, seja lá o gosto, o interesse, manias, medos, classe social, sei lá. A partir do momento em que as pessoas mudam com o tempo, a similaridade vai se perdendo, e talvez o vínculo e o afeto se percam também. Mudamos o tempo todo, mas nem sempre estamos preparados para a mudança do(a) outro(a). Meio maluco se for parar para pensar, e eu sempre penso em coisas assim. Antes de dormir à noite, numa tarde cinzenta ouvindo Sonic Youth. Em terra de sãos, quem pensa além do visível comum e manjado é rei.

Guerra Fria

Nessa guerra entre orgulho e saudade, tu sais vencedora nas duas. A saudade aperta no peito, mas o orgulho te recoloca numa trajetória certa. A saudade aperta em mim, mas não tenho orgulho, sigo perdido e sem trajetória. O teu silêncio é um mistério que tento descobrir, e sua voz, distante, me reconforta e ampara. Mal sabes. Agitada, reclamando e argumentando sobre seus direitos. Correta. Algumas coisas nunca mudam, e com você não seria nenhum segredo. Se o homem pisou na lua, foi lançado ao espaço, descobriu água em Marte, como é que eu ainda não tenho seu novo endereço? O silêncio às vezes não comete erros. Nessa guerra, eu aceito perder, e cada dia eu perco de novo; cada dia um pouco mais. Minha mente diz que não, mas meus olhos me entregam. Quanto mais vezes eu perco, mais vezes você ganha, e me ganha. Porque amar, não são borboletas no estômago. Amar é um soco na mente. Amar é saber perder algo para poder viver. Porque amar, é andar no caminho errado mesmo sabendo que ele não leva a lugar algum. 

Retalhos

Estava cá eu pensando no que é a vida com fantasmas travestidos de pessoas ao nosso redor, e como tudo muda sem darmos conta que tudo mudou. Para quem quer que esteja pensando que escrevo sobre eles, esse eu fiz por vocês. São só retalhos que lhes mando, retalhos de amor, de uma parte dos meus sonhos. Como uma lembrança boa, um sopro de vida. Uma peça de teatro. A minha alma é um eterno reflexo daquilo que meus olhos esquecem de enxergar. Nela cabe um broche, uma agulha de tricô, um trecho de carta, um adeus que não soube se perder, um grito no espaço, um tiro no escuro, um amor indivisivel e quieto. Cinza. Cabe a vida que eu tento viver. Cabe um pensamento seu, o mundo como ele é, estranho do jeito que é. Surgido do incompreensivel e tão simples de sê-lo. Eu rabisco desenhos de galáxias distantes, no ato mecânico (e mágico) de criar arte. Onde nada se perde, nem mesmo na destruição. Eu sou o arquiteto da minha própria destruição, e o engenheiro da minha chance de luz. O meu espírito é tão forte, que resiste aos impulsos e às tentações do mundo, a vida e a morte diariamente. No momento do sono simulo a minha morte, e renasço todos os dias pela manhã. A minha alma é tão frágil, onde ponho tudo a perder, como se eu estivesse num casino e apostasse todas as fichas num jogo que já perdi. O que sobra do amor são só retalhos. Só retalhos.

Instante

O instante existe hoje e sempre. Ele assume várias faces e várias vozes, como personagens numa peça de teatro. Às vezes se camufla de assassino, à noite. Corre pelas ruas como uma jovem fugindo de seja lá quem esteja perseguindo-a. Cauteloso e esperto, o instante sabe a hora de pedir um favor, ou a hora de simplesmente acontecer; e passar uma mensagem. Em alguns lugares, as crianças ainda brincam nas ruas, esperando o entardecer e o chamado dos pais, no instante em que a vista difusa e escura não enxerga muito além do que se vê. Trazendo suas armadilhas com o tempo, o instante pode ser tornar cruel, e obsolente. Com o tempo, o instante passa a ser um momento que dura mais, e tarda mais a prover outros momentos. Mementos. O instante não pergunta se tudo está bem, ou se você tomou café da manhã, se almoçou, jantou ou dormiu bem. Ele acontece e some, como as nuvens depois de uma chuva intensa, que dá lugar a um céu azul. O instante não pergunta se você foi demitido, se perdeu um grande amor, se foi roubado, se o governo te fode há anos. O instante não pergunta se você chorou, se perdeu uma pessoa próxima, ou até mesmo um familiar. Não pergunta onde você esteve, nem pra onde você pretende ir. Não liga pros seus erros do passado, nem para sua incerteza no presente. Não pergunta quantos amigos você tem, muito menos quantas pessoas você já conhececeu. Conhecer aqui, num sentido abstrato, pois conhecemos o que a pessoas nos querem mostrar, não o que elas são, de fato. (Como uma imagem no espelho, que nunca revela o que realmente é, e sim o que, geralmente, queremos enxergar.) Não pergunta suas angústias e nem os seus medos, muito menos quais são seus planos e sonhos. Não pergunta sobre a confusão que se passa na sua cabeça diariamente, não pergunta se você fracassou, ou sucedeu. Não pergunta se você bebe, fuma, trepa, se droga, come demais, trabalha demais, malha demais ou se estressa demais. Se é rico, pobre, asiático, branco, pardo, negro, indígena ou alien. Não pergunta o que você pensa sobre o problema de como resolver os seus problemas, e como isso é um grande problema. O instante é um grande problema. O instante é a vida. A vida é um grande problema. A vida, sem qualquer tipo de verossimilhança, em sua mais simples e pura definição. A vida é instante. Instantes. Vidas.

Animália

Eu vejo gente que tropeça na casca da banana, eu dou risada e afogo o rabo do macaco. Já vi mulher com muito pelo na xana, ô minha filha, depila esse sovaco. Não esqueça também da xana, não confunda cera quente com tabaco. Pode acender o fogo da bagana, mas não me ofereça um pitaco. Conheci uma Alana que dizia: o que eu consumo, eu pago. Ela ali em Copacabana, e eu lá nos Grandes Lagos. Uma cavala na cama, impossível medir o estrago. Não reclama não, enfia até o gago. Era o que eu ouvia num sábado gozado, enquanto ouvia Legião Urbana parecia Macarena na verdade era Romina e só queria uma carona para fugir lá pras dunas.

Essa é uma estória real, com nomes fictícios (e muito inspirada pelos Raimundos).

Carona

O amor é uma carona, valeu pela viagem.

De repente meu castelo de areia desmoronou com a maré, e desapareceu como uma onda no mar. Eu estava ali naquela praia deserta enxergando miragens e você estava ali de costas com a bunda torrando no sol. Intimidade é uma merda, eu sei. Depois de duas horas de trilha nós finalmente chegamos naquele paraíso natural escondido no mapa. Cheguei a me perder só para encontrar o pôr do sol, os raios meio amarelos, meio alaranjados, refletiam nos seus olhos da cor do mar, que mudam de cor, dependendo dos dias. Uma vibe incrível, e inesquecível. Ali. O astro maior repousou só para dar lugar à lua. O amor maior repousou só para dar lugar à saudade. Costumava dar uma saudade, de vez em quando, quando pensávamos que poderia ser diferente. Já não costuma mais. Mas não falo de amor, não, não; mas, amor, amar, é coisa de gente grande, então deixei pra lá. Sou novo ainda, um moleque, tão moleque que qualquer moleque via como eu era adulto quando estava próximo a você, sentado no banco da praça, ou na grama de cima daquela montanha, acidente geológico da natureza. Ou em qualquer outro lugar, que não fosse aqui, dentro de mim, pois aqui dentro tudo é bagunçado, redemoinho de ideias, órgãos, sentimentos e líquidos. Bem humano assim mesmo, visceral. O dia havia acabado e a luz da lua sempre guiava nossos passos no meio daquela escuridão vazia. Ao chegar no hotel, aquele banho quente que escorre pelo corpo e purifica tudo de ruim que há. Havia também um esboço de meditação enquanto o barulho do chuveiro aliviava e trazia paz. Depois disso, devidamente arrumados, passeios pelo centro e lugarezinhos históricos, uma simpática feirinha hippie a beira mar e vários caiçaras vendendo micharias de madeira ou de algo exótico extraído da mata. Exaustos, o sono veio como vem a um bebê, depois de mamar. Suave e tranquilo. O dia amanheceu azul, o sol loiro fritando no céu. Era chegada a hora, arrumar os pertences e ir embora. A diária acabou. Entramos no carro e pegamos a estrada que é mais segura sem você, aquela que me leva de volta para o inferno pessoal de nós dois. No final, tudo vale a pena se a alma não é pequena, como já dizia Fernando Pessoa; minha alma é do tamanho daquilo que eu enxergo, e ela é do tamanho do mundo, mas cabe na palma da sua mão. Não precisei pedir carona, então, valeu pela viagem, mais uma vez.

PS: Valeu a pena, ê ê.

Noite

é quando os os lobos saem de suas tocas, animais estranhos refugiam-se em cemitérios, andarilhos encostam em algum lugar pois o caminho é impossível de se ver. Noite, os casais se beijam, as mãos afagam partes ocultas pelas roupas, causando arrepios. Vários drinks são ingeridos e substâncias ilícitas surgem como uma nuvem que cobre a lua. Mãos na cintura e um cigarro na boca, a moça está envolvida em roupas pretas e bem maquiada, esperando a hora de atacar, como um lobo na noite em que fugiu para cidade. Noite, os casais saem de seus carros, rumo a restaurantes, pizzarias, boates, motéis, shoppings e teatros. Tudo pode se perder, em contrapartida, tudo pode-se ganhar. Uma jovem de batom vermelho pensa em desaparecer do mundo, pois o mundo em que vive não é como ela sonhou, e a vontade de desaparecer é a única coisa que ela possui. Noite, a música toca nos diferentes cantos da metrópole e um celular toca no fundo da bolsa, um convite para perversão. Uma fogueira é acesa num canto distante, jovens sentados ao redor da chama, contando histórias de terror e histórias de vida, experiências vividas, decepções e um motivo que os faça manter o foco no fogo. De repente, uma matilha de lobos acha o acampamento e destrói tudo que vê pela frente, à procura de carne. Movidos pelo cheiro da fumaça e de alimento posto ao fogo, os lobos seguem em disparada rumo àquele círculo de magia e contradições. Enquanto isso a jovem bem maquiada responde a ligação e diz que já está a caminho, põe seu salto 15 e retoca o lápis do olho; as danceterias e baladas estão cheias de pessoas vazias, os bares servem de consolo para aqueles que estão cansados da rotina semanal, para aqueles que sofreram e sofrem de uma desilusão amorosa, ou para aqueles que não quiseram ficar em casa assistindo ao filme em casa, e enchendo as mãos de manteiga da pipoca; camas dos motéis balançando enquanto casais se atritam num rito animal; restaurantes e pizzarias estão cheios de pessoas abastadas ou simplesmente quem está com preguiça de preparar uma refeição em casa; shoppings bombam, cheios de gente querendo mostrar o que não tem; teatros cheios de pessoas querendo apreciar as máscaras, derrubar as próprias, ver a máscara dos outros caírem. Feito todo o estrago, os lobos já satisfeitos levam o que sobrou para suas tocas, e a moça maquiada recebe uma rosa, um chamego, uma mão alheia na cintura e um beijo. O mundo fez sentido para ela pela primeira vez, a vontade de desaparecer desapareceu. Voltou para casa contente e encontrou seus lobos adormecidos  e alguns pedaços de tecido humano nas pequenas montanhas e nos jardins. Tudo acontece na noite, e nem sempre ela termina quando amanhece o dia.

Pureza

Se cada rodoviária é um ponto de saudade, qual ônibus esqueci-me de pegar?

Embarquei num ônibus antigo e lotado de pessoas vazias. Pessoas embaralhavam as palavras enquanto bebês choravam e suas mães nada podiam fazer para contê-las. A neblina cobria tudo, e quase não era possível enxergar através do vidro úmido e embaçado. Escrevi com a pontinha do dedo uma palavra na superfície rígida, olhei para o nada possuidor de tudo imaginando objetos voadores raspando nas janelas daquele veículo. Um senhor de cabelos brancos reparou em como a estrada estava estranha, e perguntou-me pra onde estávamos indo. Respondi que não sabia, mas parecíamos estar seguindo no sentido oposto do fluxo normal de gentes. O ar sobre minha cabeça de nada adiantava, o pensamento fervia enquanto a mente agilizava processos e catalisava emoções. Uma profunda reflexão ocorreu-me quando todos aparentavam estar adormecidos, quando o silêncio era quase absoluto, o meu reggae soprava longe nos ouvidos e o ruído do motor quase não me incomodava.

Não há nada mais puro do que sentir amor por quem o sente por ti. A pureza das coisas está em encontrar o amor puro no meio de tanto lixo, tanta miséria, falsidade, hipocrisia, manipulação, hegemonia, ideologia, apologia, jogos de traição, no meio de tanta gente querendo tirar proveito daquilo que o outro tem a oferecer.

A pureza desse amor se encontra relaxada no fundo da minha alma, enquanto doces pessoas tocam harpas e permitem que eu escute a melodia mais bonita que eu já ouvi na vida, e que ao fundo elas adoram dizer: todo amor que você sente, involuntariamente acaba voltando pra você. As coisas puras ainda existem, em pessoas que eu amo, e que sentem o mesmo que eu sinto.

Mergulho

de cabeça, do alto de um penhasco. Mergulhei. Como se fosse um nadador profissional pulando de um trampolim direto pra uma piscina de raia olímpica, numa dupla cambalhota. Cheguei fundo o bastante pra saber que era hora de respirar, senão acabaria afogado na própria respiração. Subi, batendo os pés na água de forma apressada e desesperada, até que cheguei a superfície. Os pulmões sufocavam enquanto o ar saía e entrava como o pulsar de um coração.

Mergulho no que me dá vontade, sempre, pois a vida não espera por mim. Mergulhei, de cabeça, sem garantias, sem esperar nada em troca. Banhei-me em águas perigosas e quase morri na correnteza. Logo devia saber que não se deve mergulhar em águas desconhecidas, mas sempre tive fascínio pelo perigo, pela carta fora do baralho, pelo caminho que ainda não percorri. É isso que me mantém vivo, estrangeiro, lobo fora da matilha. No pôker sou All-In, no xadrez sou cheque em mate, quase tendendo ao empate. A linha tênue entre a igualdade e a sublime vitória. Me entrego, arrisco, petisco, tento, amo, vivo, respiro e vivo. Intensamente. Não penso duas vezes. Se perco uma batalha, recolho os pedaços do tempo que eu não desperdicei e fujo com ele, a galope e em disparada. Se ganho, não sei o que fazer com a vitória, e é pela dificuldade da batalha que não se desiste. Não se desiste daquilo que se ama, até que o consiga, ou até que o perca para sempre. Enquanto houver motivos, a bandeira branca não será hasteada. Nessa vida ou em outra, eu sou guerreiro, legionário, abençoado por Deus e guiado por Jah. Tenho coração de leão, pulmão de ferro e espada de fé. E um Coração encharcado. Sou um Bilhete numa garrafa de gim guiado pelas marés.

Trechos

”Separava perigos do grande perigo, e era com o grande perigo que o ser, embora com medo, ficava. Só para sopesar com susto o peso das coisas. Afastava as verdades menores que terminou não chegando a conhecer. Queria as verdades difíceis de suportar. Por ignorar as verdades menores, o ser parecia rodeado de mistério; por ser ignorante, era um ser misterioso. Tornara-se também: um sabido ignorante; um sábio ingênuo; um esquecido que muito bem sabia; um sonso honesto; um pensativo distraído; um nostálgico sobre o que deixara de saber; um saudoso pelo que definitivamente perdera; e um corajoso por já ser tarde demais.”

”Tudo isso, contraditoriamente, foi dando ao ser a alegria profunda que precisa manifestar-se, expor-se e se comunicar. Nessa comunicação o ser era ajudado pelo seu dom inato de gostar. E isso nem juntara nem escolhera, era um dom mesmo. Gostava da profunda alegria dos outros, por dom inato descobria a alegria dos outros. Por dom, era também capaz de descobrir a solidão que os outros tinham em relação à própria alegria mais profunda. O ser, também por dom, sabia brincar. E por nascença sabia que gestos, sem ferir com o escândalo, transmitiam o gosto que sentia pelos outros.”

”Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar! sei que é ignóbil  ter entrado na intimidade de alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar – não conte, só por carinho não conte, guarde pra você mesmo as vergonhas Dela – mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ela fez, vou estragar a Sua reputação.”

”Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar era fácil.  É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar do meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque eu ainda não sou eu mesmo, e então o castigo é amar um mundo que não é ela. É também porque eu me ofendo à toa. É porque eu esqueço que quem nasceu depois foi ela. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimoso.”

”E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntimo do mundo, mas este mundo que ainda extrai de mim um grito.”

”Talvez eu me ache delicado apenas porque não cometi os meus crimes.  Só porque eu contive os meus crimes eu me acho de amor inocente.”

 

 

 

ps: com algumas poucas alterações de gênero

Ninguém

Eu sou aquele do olhar distante e dos olhos com olheiras, aquele que tem astigmatismo e não usa óculos só de teimosia. Eu sou aquele que odeia a claridade, aquele que se sente perfeitamente bem nela. Eu sou aquele observando os canários da terra cantando na árvore, aquele que esquece do mundo enquanto está com fones de ouvido. Eu sou aquele que fica todo molhado de propósito na chuva só para sentí-la, aquele que demora meia hora no banho pensando mil coisas e nada. Eu sou aquele que crê cegamente em Deus, aquele que odeia qualquer tipo de religião. Eu sou aquele que quando se perde na noite não se encontra no dia, aquele que se perde na música mesmo que ela não seja do seu agrado. Eu sou aquele que adora chá de hortelã, aquele que bebe whisky sozinho quando está em casa sozinho à noite. Eu sou aquele que tem de tudo, aquele que sempre sente falta de algo e chega a conclusão que não tem nada. Eu sou aquele que arrebenta o limite do cartão de débito, aquele que diz que está sempre sobrando dinheiro. Eu sou aquele que tem dezenas de pares de tênis, aquele que sempre reclama que não tem pares suficientes. Eu sou aquele que ama tatuagens, aquele que nunca teve a determinação, audácia e dinheiro para fazê-las. Eu sou aquele que tinha os piercings, aquele que os tirou só de fogo no cu. Eu sou aquele que ama a moça dos cabelos levemente cacheados, aquele que prefere as de cabelo liso e comprido. Eu sou aquele que sonha viajar o mundo, aquele que onde quer que esteja nunca vai se sentir em casa. Eu sou aquele que mora sozinho, aquele que tem os vizinhos mais entranhos do universo. Eu sou aquele que ama a natureza, aquele que rejeitava ir pras fazendas do tios. Eu sou aquele que ama a vida, aquele que vive as coisas tão intensamente que às vezes sente que viver não é suficiente. Eu sou aquele que tenho duas irmãs de consideração, aquele que talvez realmente tenha duas irmãs. Eu sou aquele que foi adotado sabe-se lá como e por quê, aquele que ainda usa um sobrenome que não é do seu pai verdadeiro. Eu sou aquele que ama pizza de quatro queijos, aquele que não troca uma vitamina de banana e maçã por nada. Eu sou aquele que assiste vários seriados, aquele que não suporta ouvir falarem a palavra novela. Eu sou aquele que ousa escrever alguns textos, aquele que é eterno aprendiz da escrita e da leitura. Eu sou aquele que virou escravo dos seus próprios atos, aquele que vai conseguir sua própria abolição. Eu sou aquele que abraça, aquele que não tem abraços quando mais precisa deles. Eu sou aquele que tento fazer tudo da forma certa, aquele que sempre acaba estragando tudo. Eu sou aquele que escuta Tom Jobim, aquele que também escuta John Lennon e sua crupe. Eu sou aquele que fumava cigarros socialmente, aquele que não pode sentir cheiro de fumaça que já se sente atraído por um trago, mas se contém. Eu sou aquele que caminha solto pelas avenidas, aquele que adora andar de táxi. Eu sou aquele que ama e não é correspondido, aquele que já fez moças sofrerem pelo mesmo mal. Eu sou aquele que fala ‘se cuida’, aquele que no fundo queria cuidar. Eu sou aquele que tem infinitas complicações, aquele que sempre arranja uma solução simples pra tudo. Eu sou aquele que não tem limites, aquele que é escravo da própria liberdade. Eu sou aquele que é taxado de vagabundo, aquele que não vê a hora de começar a trabalhar e ser dono dos próprios passos. Eu sou aquele que tenta ver o bem nas pessoas, aquele que se decepciona por acabar sempre reparando no pior que elas tem. Eu sou aquele que deu um saque de borracha na testa da professora, eu sou aquele que odeia jogar vôlei. Eu sou aquele que gosta de programas mais lights, aquele que ama ver filmes de terror. Eu sou aquele que não conteve as lágrimas, aquele que tentou chorar sozinho em silêncio e não conseguiu. Eu sou aquele que dá os melhores conselhos, aquele que tem os piores problemas. Eu sou aquele que não dorme de noite, aquele que agora consegue dormir de dia. Eu sou aquele tipo que os pais avisam os filhos pra tomarem cuidado, aquele que é um anjo de pessoa. Eu sou aquele rapaz prendado, aquele que odiava lavar louça. Eu sou aquele que ama a mãe mais do que tudo, eu sou aquele que não conheço meus pais. Eu sou aquele que fez teatro, aquele que não se sente bem expondo suas ideias em público. Eu sou aquele que sonha conquistar o mundo, aquele que tem preguiça de aprender a dobrar as próprias roupas. Eu sou aquele que ama futebol, aquele que também entende de tênis e basquete. Eu sou aquele que tem infinitos defeitos, aquele que procura alguém que ame as suas imperfeições. Eu sou aquele que em outros tempos seria preso pela ditadura militar, aquele que tem a pele razoavelmente clara e um sonho de revolução. Eu sou aquele que criou o próprio inferno na terra, aquele que deseja ir para o céu. Eu sou aquele que odeia falar ao telefone, aquele que gosta de falar pelo telefone. Eu sou aquele que já perdeu vários parentes, aquele que reza por uns poucos que ainda se fazem presentes. Eu sou aquele que tem sede de vitória, aquele que não sabe aceitar bem uma derrota. Eu sou aquele que torce muito pela felicidade dos outros, aquele que é um poço de tristeza. Eu sou aquele que tem um universo de contradições, aquele que está começando a entender a vida. Eu sou aquela metade da laranja que não foi pra gaiola, aquela que sofre por ter perdido a sua metade e que não encontra outra equivalente, ou sequer semelhante. Eu sou aquele que tem mil manias, aquele que diz ‘cada louco na sua loucura’. Eu sou aquele que vê esperança nos dias de sol, aquele que encontra sua verdadeira força nos dias frios e nublados. Eu sou aquele que tem fé no amor, aquele que desistiu de procurar por ele. Eu sou aquele que tenta encontrar milhões de definições, aquele que não se define. Eu sou aquele que é de tudo um pouco, aquele que não é ninguém sem alguém.

Go On

numa noite gelada de um inverno que acabou de começar, eu percebi que eu precisava seguir em frente; que a vida continua, com ou sem você. Tudo saiu conforme o imaginado e pelo menos não tive surpresas. Na hora que certas coisas aconteceram eu senti uma pontada de dor dentro de mim, talvez no coração. Não pronunciei uma palavra sequer, e meu olhar disse tudo o que eu não consegui esconder. Sorte que não havia ninguém além de mim no meio daquela multidão de corpos inúteis. Uma das piores sensações é se sentir vazio num lugar cheio de gentes. Era exatamente essa a minha sensação. Tive sangue frio e fiquei observando as cenas, como um fotógrafo que espera o momento certo de presenciar um tsunami. Ao perceber que eu percebi o que não era pra ter acontecido, não ali, tão próximo, me lançou um olhar de tremendo arrependimento, eu pude vê-lo e pude sentir minha alma sorrindo por dentro. Sem piti, sem menção honrosa, como eu mesmo havia te prometido. Talvez a certeza de que sempre vou estar lá no fim do dia faça com que ela apronte essas coisas, talvez ela esteja apenas curtindo o momento enquanto ele existe. Talvez esteja tão perdida quanto eu, e isso sirva de pretexto para agir dessa forma. Gosta de me fazer ciumes, e de provocar, porque sabe que me importo, muito. Depois de tudo, eu te ofereci o meu lar, que também é o seu lar, te cobri e protegi do frio. A madrugada avançava rapidamente enquanto eu não conseguia fechar os olhos e te observava dormir, como um anjo cobrindo o rosto suavemente com as mãos. Certa hora, ajoelhei aos pés da cama e rezei pra Deus, pedi coisas simples, paz de espírito e uma luz que me guie no meio de tanta escuridão. O tempo era infinito ali. É muito complicado, pensei que não seria desse grau de complexidade, mas agora sinto na pele quanto o é. Uma amiga de longa data me disse que tudo isso vem tendo efeito negativo sobre mim; confesso que no fundo, bem lá no fundo, eu sei que surte tal efeito, mas eu estou aprendendo a me acostumar, com certo êxito até, arriscaria dizer. Talvez venha a ler isso aqui algum dia, mas mal sabes que um lugar no meu coração, um dos mais bonitos, sempre será seu. Uma parte minha sempre será sua, não importa quanto tempo passe. A melhor parte de mim sempre contém você. Talvez eu te espere o tempo que for necessário. Temos todo tempo do mundo. Cabe a você decidir se quer algo que mude sua vida para sempre ou só alguma história a mais pra contar. Sem pressão, sem cobrança, sem desespero, com o mesmo sentimento de sempre. Eu sempre vou estar aqui, e não me vejo em outro lugar mais aconchegante. Logo ali, esperando algo que talvez nunca venha a acontecer. Liberdade é uma chave que abre várias portas. Fui avisado por tanta gente que a amizade não seria a mesma coisa, e fui teimoso, agora cá estou, tentando juntar os cacos de um espelho que você mesma quebrou. Nunca deveria ter falado o que eu sinto, JAMAIS. ”Fiz tudo certo, errei quando coloquei sentimento.” Se arrependimento matasse… There’s no other way. Perdido e sem saber o que fazer para que tudo volte a ser o que era antes. Saudade de quando olhávamos juntos na mesma direção.