Chave

Engraçado como o passar do tempo muda alguns sentimentos. Às vezes me questiono, em sextas feiras assim, chuvosas, se algum dia eles foram reais. Ou se foram só algo que procurei em vão e não encontrei em determinado ponto da minha vida. Talvez até foram, mas isso de nada vale agora. Páginas passadas, amareladas e se desfazendo lentamente com o tempo. A felicidade mora ao lado. De que lado da rua escrevi meus diários? Procrastinação, música e silêncio. Acabaram em textos. Coisas ruins e boas. Levo só as boas, se houver, é claro. A chuva cai e o meu pensamento pega o primeiro vôo pra lugar algum. A volatilidade de pseudo sentimentos e ideias distorcidas me assusta. Um ano atrás nunca imaginei o modo que minha vida estaria agora, um ano depois. O amanhã já vira passado antes de ser passado. Aos dias e anos perdidos, um brinde. Tim tim. Fiz história pro mundo, fiz liquidação pras vitrines, fiz minha própria biblioteca. A mágica de escrever é falar sobre tudo e o leitor não saber qual parte foi real ou não. Lá fora choveu o dia todo, e nada parece estar no lugar certo quando você está longe daqui. Guardei a sua chave.

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Cinematográfico

Cinematográfico

Onde estão aquelas pessoas apaixonadas pela arte, pelos livros, por cultura em geral? Onde está o bom gosto musical, social, cinematográfico, gastronômico e literário? Gente que tem um brilho nos olhos que revela saber tudo, mas são apenas pessoas que querem descobrir o mundo. Cadê aquele abraço sincero, demorado, sem segundas intenções? Gente que acredita no futuro e odeia o presente tanto quanto eu. Gente que tem fé que um dia tudo vai se resolver e ficar em paz para sempre. Que aprecia o pôr do sol, o nascer do sol, todas as dádivas da natureza. Gente que faz o coração acelerar logo no primeiro golpe de vista. Que nos olha de uma maneira que nenhuma outra pessoa olha. Gente que faz o mundo ser mais nós e menos eu. Que sorri com os olhos e ainda diz palavras bonitas não decoradas. Gente honesta, que não mente por coisas fúteis e às vezes tem que esconder a verdade só para não haver mágoas. Gente que vai atrás do que quer e não tem medo do destino, nem dos obstáculos da vida. Que não tem orgulho, que saiba a hora certa de falar e saiba a hora de ficarmos em silêncio. Gente que não fala nem sempre consente. Que diz coisas boas e inesperadas nos momentos mais aleatórios. Gente que liga, se importa, compartilha, sofre com a gente. Que saiba respeitar o nosso espaço e também nosso silêncio e nossa solidão. Gente que não força a barra, que não faça joguinhos, senão de amor. Que sabe ser irônica e sarcástica, mas não de má fé. Gente que saiba agir como adulta e saiba usar os momentos certos de ser criança. Que faz o mundo ser melhor só por existir. Gente que querendo ou não, seja um dos motivos para eu escrever algo assim. Que não precisa pedir muito para não ser tão pouco. Gente que eu só vejo nos filmes e leio nos livros. Que seja um pouco assim como eu, detalhista e observador de tudo. (Como é difícil…)

Pequim

Qual o valor de uma promessa? O famoso “para sempre” não dura mais que um instante. E o instante sempre passa por aqui. Paixão também sempre passa. Amor passarinho. Voa pra longe sem saber do que está fugindo. Difícil é querer dizer sem saber o que está sentindo. Progredir sabendo que está regredindo. Esconder um sentimento sabendo que está sentindo. Sorrir para o mundo sabendo que ele não está sorrindo. Fingir o riso quando estão rindo. Ver o mundo acabando. Saber que estão te enganando. O amor se comprando. A verdade rareando. A fé se perdendo.

Tão só, e só somente

. Eu sou. A solidão é a minha melhor amiga, e o silêncio não precisa mais ser convidado. Já é da casa. Meu mundo gira como gira para todos os outros, mas parece que para mim ele gira de forma reversa. Meu sono é pesado, e costumo sonhar sempre. Os sonhos me ferem sem que eu perceba. Sonham os sonhos, sem que eu queira, no meu profundo inconsciente. O meu silêncio grita por socorro, e já não sei como socorrer o mal que causo a mim mesmo. A luz no fim do túnel se apaga todos os dias para mim. Tudo que vejo é uma neblina de desesperança pairando sobre os meus olhos. A morte parece ser muito pouco, um fim banal. Ninguém seguiu meus passos, ninguém observou minhas lutas, ninguém viu a minha queda. Ninguém escutou as minhas lágrimas. O que eu vivo, esse ego caos, não gostaria que fosse vivido por ninguém. O perto distante está cada vez mais longe daqui, e o caminho é confuso. Sabe-se lá como não aconteceu o pior e não me perdi. Sobre estar só, eu sei. Procuro uma saída e encontro outras portas de entrada. Penso tanto, mas o pensamento sempre volta para algum mesmo lugar. O meu sorriso diz o que não digo, diz também o que eu digo e o que eu gostaria de dizer. Meus olhos com olheiras são distantes, olham para o real, mas sabendo que o real não está realmente ali. O meu campo de visão vai além do que pode ser visto, e ninguém entenderia o motivo, então guardo para mim. Os meus sentimentos dividem-se em corações distantes daqui, um pouco em cada alma. Luz, escuridão, vida, paz, entendimento, amor e o silêncio da estrada no carinho da noite.

Tão só, e só somente. Eu sou. Tanto, e sempre.

Retrospectiva 2013

Superstição ou não, os anos ímpares não costumam me trazer muita sorte. E é claro que esse ano não seria diferente.

Eu ia fazer essa retrospectiva mais para o fim do ano, mas, como estou de porre pós abstinência alcoólica de dois meses, achei que seria propício, e mais interessante, fazê-la já.

Vamos aos fatos: vi ídolos, familiares e pessoas que admiro morrerem. Não pude ir ao enterro do meu padrinho. Não fui pra Porto Alegre no niver da Sis. Prometi que iria, mas não pude ir. Não consegui realizar esse sonho. Fui pra São Paulo duas vezes e não consegui ver nenhuma das pessoas que eu gostaria de ver. Não fui o filho que eu gostaria de ser, muito menos o neto. Não fiz as viagens missionárias que gostaria de fazer. Perdi o amor da minha vida, tendo que vê-la de segunda à sexta, toda semana. Perdi amizades que eram essenciais e vitais, tudo por culpa minha. Passei madrugadas e mais madrugadas acordado, pensando na vida e em tudo que me trouxe até aqui. Aproveitei a vida também, ao extremo, enquanto ela tinha graça de ser aproveitada.

Algumas coisas simplesmente perderam a graça, e não sei o que é necessário fazer para que volte a ter.

Melhorei consideravelmente como escritor, sendo esse ano o mais produtivo de todos, em questão de produção literária. Nunca escrevi tanto, e com tanta qualidade. Conheci pessoas incríveis, outras nem tanto, algumas pelos caminhos, outras pelas andanças. Desconheci outras. Criei vínculos, uns fortíssimos, outros nem tanto. Criação. 

A gravidade pesou mais forte nos meus ombros esse ano. Eu pensei em desistir de tudo, e nunca mais voltar. Mas busquei forças sabe-se lá onde e fui além, e resisti a tudo. ”Um guerreiro de fé nunca gela, não agrada ao injusto e não amarela.” Cá estou. Esse ano aprendi demais com a vida e ela aprendeu demais comigo também. Desistir? Jamais. Mesmo que tudo conspire contra mim.

Teve muita coisa boa também, teve muito beijo, muito sorriso, muito abraço, muito chamego, muito amasso, muito colo, muito carinho, muita parceria, muita viagem, muito evento, muito jantar, muita festa, muito churrasco, muita comida boa (sem trocadilhos, por favor), muita emoção, e acima de tudo, muito frio na barriga. Ah, e muito táxi. Acho que esse ano poderia ser chamado de ‘O ano do táxi’, nunca andei tanto nos laranjinhas.

Tudo que é demais sufoca, perturba, vira moda. E a moda passa, acaba.

Cresci como pessoa, intelectualmente, mentalmente, profissionalmente, e espiritualmente. Deixei a barba crescer, fiz tatuagens, coloquei mais piercings, (nunca tive tantos, mas agora já tirei alguns). Arrumei meu primeiro emprego (só arrumei). Aprendi a pedir perdão e perdoar, agradecer mais do que reclamar, viver mais do que sonhar. Entender que, algumas coisas eu só posso aceitar, não adianta eu tentar mudar. Enfim, vivi, sem medo de errar, e errei muito.

“Acho que prefiro me lembrar de uma vida desperdiçada com coisas frágeis, do que uma vida gasta evitando a dívida moral. {…} E me perguntei a que me referia com ‘coisas frágeis’. Parecia um belo título para um livro de contos. Afinal, existem tantas coisas frágeis. Pessoas se despedaçam tão facilmente, sonhos e corações também”. (Coisas Frágeis – Neil Gaiman)

Não sei se vocês algum dia já perceberam, mas, Neil Gaiman é como se fosse um tutor para mim, e ‘coisas frágeis’, é uma das categorias de texto do meu blog. Acho que não preciso explicar por quê.

Basicamente, foi isso que me veio à cabeça para escrever na retrospectiva. Se ficou boa ou ruim, não saberia dizer, mas ficou real e sincera, e era esse o meu objetivo.

PS: Hoje, exatamente um ano atrás, eu me instalei aqui em Curitiba. Por quanto tempo eu vou ficar aqui? Mantenho a dúvida.

Retalhos

Estava cá eu pensando no que é a vida com fantasmas travestidos de pessoas ao nosso redor, e como tudo muda sem darmos conta que tudo mudou. Para quem quer que esteja pensando que escrevo sobre eles, esse eu fiz por vocês. São só retalhos que lhes mando, retalhos de amor, de uma parte dos meus sonhos. Como uma lembrança boa, um sopro de vida. Uma peça de teatro. A minha alma é um eterno reflexo daquilo que meus olhos esquecem de enxergar. Nela cabe um broche, uma agulha de tricô, um trecho de carta, um adeus que não soube se perder, um grito no espaço, um tiro no escuro, um amor indivisivel e quieto. Cinza. Cabe a vida que eu tento viver. Cabe um pensamento seu, o mundo como ele é, estranho do jeito que é. Surgido do incompreensivel e tão simples de sê-lo. Eu rabisco desenhos de galáxias distantes, no ato mecânico (e mágico) de criar arte. Onde nada se perde, nem mesmo na destruição. Eu sou o arquiteto da minha própria destruição, e o engenheiro da minha chance de luz. O meu espírito é tão forte, que resiste aos impulsos e às tentações do mundo, a vida e a morte diariamente. No momento do sono simulo a minha morte, e renasço todos os dias pela manhã. A minha alma é tão frágil, onde ponho tudo a perder, como se eu estivesse num casino e apostasse todas as fichas num jogo que já perdi. O que sobra do amor são só retalhos. Só retalhos.

Vendaval

Ligar, pedir, correr atrás, tentar consertar, diminuir a distância que o tempo causou, imaginar, reviver, comprar passagem só de ida, não ter hora pra voltar, não ter vergonha de se desculpar pelo erro, quantas vezes preciso for, voltar, rir do olhar, renascer. Quem sabe até o destino se una ao acaso, e coopere para que tudo dê certo. Quem sabe até ser feliz, mas não agora. Esperar o vendaval passar.

Carona

O amor é uma carona, valeu pela viagem.

De repente meu castelo de areia desmoronou com a maré, e desapareceu como uma onda no mar. Eu estava ali naquela praia deserta enxergando miragens e você estava ali de costas com a bunda torrando no sol. Intimidade é uma merda, eu sei. Depois de duas horas de trilha nós finalmente chegamos naquele paraíso natural escondido no mapa. Cheguei a me perder só para encontrar o pôr do sol, os raios meio amarelos, meio alaranjados, refletiam nos seus olhos da cor do mar, que mudam de cor, dependendo dos dias. Uma vibe incrível, e inesquecível. Ali. O astro maior repousou só para dar lugar à lua. O amor maior repousou só para dar lugar à saudade. Costumava dar uma saudade, de vez em quando, quando pensávamos que poderia ser diferente. Já não costuma mais. Mas não falo de amor, não, não; mas, amor, amar, é coisa de gente grande, então deixei pra lá. Sou novo ainda, um moleque, tão moleque que qualquer moleque via como eu era adulto quando estava próximo a você, sentado no banco da praça, ou na grama de cima daquela montanha, acidente geológico da natureza. Ou em qualquer outro lugar, que não fosse aqui, dentro de mim, pois aqui dentro tudo é bagunçado, redemoinho de ideias, órgãos, sentimentos e líquidos. Bem humano assim mesmo, visceral. O dia havia acabado e a luz da lua sempre guiava nossos passos no meio daquela escuridão vazia. Ao chegar no hotel, aquele banho quente que escorre pelo corpo e purifica tudo de ruim que há. Havia também um esboço de meditação enquanto o barulho do chuveiro aliviava e trazia paz. Depois disso, devidamente arrumados, passeios pelo centro e lugarezinhos históricos, uma simpática feirinha hippie a beira mar e vários caiçaras vendendo micharias de madeira ou de algo exótico extraído da mata. Exaustos, o sono veio como vem a um bebê, depois de mamar. Suave e tranquilo. O dia amanheceu azul, o sol loiro fritando no céu. Era chegada a hora, arrumar os pertences e ir embora. A diária acabou. Entramos no carro e pegamos a estrada que é mais segura sem você, aquela que me leva de volta para o inferno pessoal de nós dois. No final, tudo vale a pena se a alma não é pequena, como já dizia Fernando Pessoa; minha alma é do tamanho daquilo que eu enxergo, e ela é do tamanho do mundo, mas cabe na palma da sua mão. Não precisei pedir carona, então, valeu pela viagem, mais uma vez.

PS: Valeu a pena, ê ê.

Trechos

”Separava perigos do grande perigo, e era com o grande perigo que o ser, embora com medo, ficava. Só para sopesar com susto o peso das coisas. Afastava as verdades menores que terminou não chegando a conhecer. Queria as verdades difíceis de suportar. Por ignorar as verdades menores, o ser parecia rodeado de mistério; por ser ignorante, era um ser misterioso. Tornara-se também: um sabido ignorante; um sábio ingênuo; um esquecido que muito bem sabia; um sonso honesto; um pensativo distraído; um nostálgico sobre o que deixara de saber; um saudoso pelo que definitivamente perdera; e um corajoso por já ser tarde demais.”

”Tudo isso, contraditoriamente, foi dando ao ser a alegria profunda que precisa manifestar-se, expor-se e se comunicar. Nessa comunicação o ser era ajudado pelo seu dom inato de gostar. E isso nem juntara nem escolhera, era um dom mesmo. Gostava da profunda alegria dos outros, por dom inato descobria a alegria dos outros. Por dom, era também capaz de descobrir a solidão que os outros tinham em relação à própria alegria mais profunda. O ser, também por dom, sabia brincar. E por nascença sabia que gestos, sem ferir com o escândalo, transmitiam o gosto que sentia pelos outros.”

”Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar! sei que é ignóbil  ter entrado na intimidade de alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar – não conte, só por carinho não conte, guarde pra você mesmo as vergonhas Dela – mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ela fez, vou estragar a Sua reputação.”

”Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar era fácil.  É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar do meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque eu ainda não sou eu mesmo, e então o castigo é amar um mundo que não é ela. É também porque eu me ofendo à toa. É porque eu esqueço que quem nasceu depois foi ela. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimoso.”

”E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntimo do mundo, mas este mundo que ainda extrai de mim um grito.”

”Talvez eu me ache delicado apenas porque não cometi os meus crimes.  Só porque eu contive os meus crimes eu me acho de amor inocente.”

 

 

 

ps: com algumas poucas alterações de gênero

Cold Skin

Janela e porta fechadas, chuvisco e achocolotado. Ele havia mentido para conseguir o que queria, conseguiu; mas depois se deu conta que não era disso que precisava de fato. O efeito inexplicável que uma foto tem, especialmente quando se trata de uma pessoa que se amou tanto no passado; e agora ela tem outra, ama a outra. Num amor mais puro que se pode ter. Olhos verdes, barba e alargadores. Pele branca, fria e com cabelos escuros. A lembrança que me vem a mente é de horas e horas conversando ao telefone, uma voz doce que dizia tudo que eu precisava ouvir, a distância, sempre a distância, não sei porque ela existe, deveras. Num piso de madeira, você ali sentada, matando as horas do trabalho, pra ouvir a minha voz, as nossas vozes diziam tudo que precisávamos ouvir. Tudo era bonito e sincero, por uma leve fração de meses, parecia que ia dar certo, viagens, proximidade, mas nunca contato físico, um amor sublime como a brisa da manhã; que terminou abruptamente numa outra manhã, nublada, cinzenta demais, fria, e chuvosa. De repente o meu muro de rigidez despencou, o mundo despencou. Não sabia o que fazer pra trazê-la de volta, nunca traria, mas a mente otimista faria o possível para realizar os pedidos do órgão pulsátil e bobo. Mais de dois anos depois, a imagem que vem a tona, a moça da pele clara e fria, acompanhada de seu amante, combinam-se como o arco íris após a chuva. Perdi o sono, fiquei acordado a noite toda pensando como isso podia ter acontecido, de alguma forma doeu como se ainda fosse real, como que se o que tinha ainda fosse real e verdadeiro. Num mudar de páginas a realidade dói e fere, já não tenho mais você e nem o brilho que costumávamos ter. Agora você brilha, perfeita sob a luz do dia, mais ainda sob a luz da noite. Amor antes de tudo é libertação. Deixei-te livre pra seguir o seu caminho e você seguiu, serva obediente do nosso amor que um dia era chama acesa, fogueira de sentimentos. As minhas mãos estão frias, assim como meus pés. A vida sempre me foi muito confusa, muito além de formulas matemáticas que nunca entendi, muito além de sentimentos que não recebi. Confusa, pelo simples fato de mudar a trajetória das coisas num piscar de olhos. Num raiar ou pôr do sol, põe-se tudo a perder. Nos perdemos. Eu, mais que nós, me perdi mais ainda.

Na calada da noite

Gracejo, cortesia, vultos de carros, vento na persiana. Suspiros na noite. Lembranças de um futuro que ainda não aconteceu; devaneios, lampejos, mademöiselle. Camuflagem de sentimentos, um herói perdido numa cidade atrasada no tempo. Davi e Golias num combate que ainda não tem solução. Pedra no sapato, calcanhar de Aquiles, Helena, mitos gregos. Monge tibetano, miscelâneas, voodoos e candelabros. Luz de velas, meditação. Algo além daqueles cabelos negros ondulados e daqueles olhos esmeralda penetrantes.  Tudo que a lenda previa e que está acontecendo.  Superstição, espíritos talvez. Saudade afogada num copo de whisky antigo, orgulho enxugado num lenço recém lavado, algo além de simples aparências. Páginas e mais páginas amarelas de um crime da paz, amor à vida, amar demais.

Lovers in the dark

Looking for something we’ve never seen, we found some things you’ve said no, it will take sometime to understand, but seems like we dont have courage to speak, it’s all as it was, maybe when we are older we will understand, maybe not. It’s the price we pay, for the lies we told, that the truth no longer thrill us. We lost the magic we once had, just remember how we moved together. It all makes sense, maybe we will live forever, like lovers in the dark. Forgot to relearn how to ask, but there is no need to ask anymore. In the end, running in circles, waiting the final clock to tick, they will remain together dancing, like lovers in the dark.

Lembrete numa manhã de novembro

Viver sem as pessoas que eram essenciais na sua vida dá uma sensação diferente, uma força estranha, meio vazia, forte por si só. Escolher amizades não é chatice ou mesquinhez, é auto-valorização, um pouquinho de amor próprio às vezes vai bem, misturado com vodka.

O segredo não é tentar entender, é deixar rolar, deixar a brisa levar, o que tiver que ser seu há de ser seu. As melhores coisas da vida acontecem de repente, de surpresa, as piores também. Geralmente vindas de pessoas que jamais pensamos serem capazes de tais proezas. O que é verdadeiramente seu nunca se vai, fica contigo. São nessas pequenas reflexões sobre a vida na manhã de novembro, aliás – não necessariamente novembro, qualquer mês – que faz a gente começar a descobrir quem somos, ou o que nos tornamos.

potion approaching

Dias cinzas, melancólicos e chuvosos. Combinação perfeita, a nostalgia diz olá. A chuva cai lá fora e não dá pra ver nada além dos muros, as árvores balançam com esse vento típico de chuva, como se dissessem : me tirem daqui, socorro. As pessoas saem de onde estão e voltam pra casa, as ruas ficam desertas. Pequenos redemoinhos passeiam na rua e farejam alguma coisa que esteja interessada em girar. O vento sussura alguma coisa, parece até um aviso, mas não conseguimos entender. Fecharam as portas e janelas pro mundo exterior, a preocupação volta-se para o universo interior doméstico. A tv e o dvd estão ligados, suspense, romance ou comédia, não sei, eu vejo algo além das telas, abstraio a imagem, e o pensamento. Ali embaixo do cobertor de lã, ou poliéster, um momento escondido, pretendido por muitos, e por muitos vivenciado. Afinal, quem nunca quis ficar abraçado com alguém naquele calorzinho ali? O casal pronuncia alguma coisa que só eles podem ouvir, como se estivessem perdidos, procurando uma resposta para uma pergunta que não existe, que se resume no momento de um beijo, num piscar de olhos, ah sim, o brilho dos olhos. Brilho dos olhos que é um dos espelhos mais bonitos, e mais transparentes, que esconde os segredos mais secretos, os sentimentos mais singelos, e os amores mais sinceros. A chuva insiste em cair ali fora, mas parece que nada interfere aquele momento. A moça segura a mão do rapaz ali na escuridão do cobertor, ela não sente frio, mas ela se sente segura assim. Recebe um carinho na mão e nos dedos, ela sorri, e ele não percebe. Com a outra mão ele afaga os cabelos sedosos dela, ela se deleita e fecha os olhos, repousa no ombro dele. Enquanto isso o filme passa na tela, personagens falam sozinhas e o som digital se propaga pelos ares da casa, invadindo todos os cômodos com o decorrer das falas. O filme enfim acaba, a chuva tornou-se garoa e a tarde adquire as características da noite. Já parecia noite, agora mais ainda. Os carros voltam a circular nas ruas, a vida se ajeita outra vez. Carrossel ambulante.