Tão pouco

Esses dias estive pensando novamente em tudo que aconteceu. Muitas coisas não ficaram claras para mim desde que tudo terminou, não tive tempo de te perguntar; também, não sei se irias responder, acredito que não. É contraditório, não? Gostar de algo que você deseja a si mesma, e quando o fiz o mesmo, em poucos meses tudo desmoronou, e você, dentre tantas outras pessoas que eu já esperava que fossem, partiu. É muito triste ter nostalgia, relembrar tudo de bom que já foi vivido e não poder voltar no tempo, mais triste ainda, ter a nostalgia triste (não sei se existe esse termo), lembrar com pesar de tudo que já passou.

Hoje eu te olhei e não sabia quem eu havia visto naquele momento, mas a pessoa que eu conheci cinco anos atrás não existia mais ali. O nome, a altura, os olhos, os cabelos, as feições, exatamente iguais, mas não era você. O semblante sério, como alguém que está preocupado com algum compromisso. A voz estava um pouco distante, como um sussurro no campo, não desejando que ninguém ouça, mesmo não havendo ninguém ali. Hoje, eu me olhei no espelho e não gostei do que vi. Os olhos cansados, com olheiras causadas pela falta de sono, o olho direito ligeiramente mais fechado que o esquerdo; a feição vazia, um fantasma refletido no vidro; as cicatrizes cirúrgicas nada se comparam às mesmas deixadas pelo tempo.

Hoje, eu me perguntei como duas pessoas que tinham tanto em comum acabam tendo tão pouco. Não materialmente, nem fisicamente, espiritualmente. Pensei, pensei, pensei, busquei inspiração na literatura e na filosofia, sem encontrar resposta. Na psicologia não, acho uma coisa de doido pra tentar convencer as pessoas que elas são doidas também. Hoje, não sabes nada da minha vida, o que passei, o que comi, o que bebi, o que me tornei. Noutro momento eu teria te contado sem pensar duas vezes, com exatidão de detalhes. Hoje não. Também não sei nada do que anda acontecendo com você, prefiro não saber, mesmo ainda pensando em ti em diferentes momentos do dia. Mal sei quem tu és.

Já eu, se um dia me perguntarem, direi que sou só alguém que viu o tempo passar e tudo mudar, e que hoje tenta dar continuidade ao que sobrou de sua felicidade. Tão pouco.

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Saxofone

Ouvi dizer que a banda mais bonita da cidade vai tocar aqui, faz tempo. Ouvi dizer que o governo ia dar um jeito em tudo que estava errado na vida de milhões de pessoas, faz tanto tempo. Ouvi dizer que o mundo era um lugar feliz e nada acontecia por acaso, até tentei acreditar. Tiveram a audácia de me dizer que a vida seria melhor sem você, eu acho que era mentira, até que a vida me prove o contrário. Era só mais uma daquelas frases soltas que as pessoas soltam pra tentar te fazer sentir melhor, esquecer do futuro, da dor que é o fim de um grande amor. Hoje vi um músico tocar saxofone na praça, com uma roupa toda colorida, pintada de branco. Ele era muito bom, eu fiquei ali por uns dois minutos, esperando esfriar o café que latejava. Quando ele terminou de tocar uma música do Kenny G, todos que estavam presentes aplaudiram, eu, encantado com a habilidade dele, aplaudi também, fortemente; fui até ele e falei: ”você toca muito bem, parabéns pelo seu dom, o que te levou a vir para cá tocar saxofone? Pelo seu semblante eu sei que você não é daqui”. Ele sorriu e respondeu: ”como você sabe que eu não sou daqui?! (perplexo) e continuou, às vezes você tem que deixar o seu sonho de lado pra sobreviver, eu abandonei tudo que eu mais amava no mundo, porque eu não era mais feliz onde eu tava”. Ele guardou as moedas que estavam dentro do chapéu, guardou o saxofone dentro de uma maleta e saiu pela avenida. Aquelas palavras nunca fizeram tanto sentido para mim.

Biarticulado

Eu sabia que havia algo estranho nesse dia, desde o momento em que me levantei. O sol estava distinto demais, brilhante demais, cinza demais. Não sentia calor, não sentia frio. Não ventava de manhã. Na sala de aula minha cabeça estava em outra dimensão, como não ficava há tempos, aérea, interplanetária. Eu sabia desde o início que algo estava errado, desde o momento em que eu subi naquele ônibus vermelho. As pessoas me olhavam de forma estranha, inclusive meu colega que havia sugerido aquela rota diferente que levava ao nosso serviço. O dia demorou a passar, como de costume, não importou a quantidade enorme de trabalho que eu havia feito. O lanche do restaurante não tinha o mesmo gosto de sempre. O catchup estava doce demais. A maionese, azeda demais. Depois, o posto de atendimento médico. A vacina da gripe no lugar errado parecia o fim de um dia diferente do estranho. Não era. Na volta do trabalho eu já me sentia estranho, uma energia incomum. Foi quando você me mandou uma mensagem pra gente se ver. Eu, lisonjeado, disse que iria tanto hoje, quanto amanhã. Ao chegar, um peso enorme no ar, como se alguém tivesse colocado pedras no vento, só pra dificultar a respiração. Perguntei onde iríamos no dia 23. Não sei. Falamos de comidas, e de como a vida era boa sem que a gente percebesse, ou percebesse e não visse o tempo passar. Como passa. Por fim, veio o que eu mais temia, o que eu pressentia desde que você fez sua mudança e deixou de ser minha vizinha, o pedido de tempo. ‘Tempo para que?’ ‘Quanto tempo?’ ‘E depois?’ Foram as perguntas que eu fiz, sem procurar saber a resposta e sabendo que você também não saberia dizer. As lágrimas escorreram tão naturalmente, como uma torneira que fica levemente aberta pingando aos poucos. Um silêncio agonizante, sufocante, aterrorizante, vários zantes. Eu sabia que o meu mundo tinha pausado ali, temporariamente. Sabia que eu teria que sair por aquela porta, sem olhar pra trás. Sabia que era um ponto sem retorno. Sabia que depois daquele momento a minha vida nunca mais seria a mesma. E eu saí, me despedi do porteiro que percebeu o meu semblante pesado e vermelho. Saí pela noite, com meus fones de ouvido. Sem nada a temer, sem nada a perder. Pois o que era mais valioso para mim, foi perdido ali, espero que temporariamente. Pois o amor que sinto por você vai além das fronteiras do tempo. Pois eu sempre estarei esperando por você, mesmo que você não esteja mais esperando por mim.

Eu sabia que havia algo estranho nesse dia.

Dias Cinzas

Acordamos todo dia pela manhã, sem direção

O olho demora pra abrir e a vontade é de não sair mais da cama

O tempo lá fora não ajuda, que angústia

 

Todo dia o ciclo se repete, num movimento constante

O tempo sempre voa, os dias vão passando sem perceber

Já parou pra pensar porque a gente segue um rumo diferente daquele que escolhemos quando éramos crianças?

 

Em que rua ou esquina nosso sonho se perdeu?

Quando é que a vida em sociedade passou a valer mais do que a vontade de viver em paz?

 

Os sorrisos estão tão escassos, no lugar do brilho nos olhos há apenas um vazio

Nosso vestuário está cheio de estampas de grifes

Camuflando o que é essencial e invisível aos nossos sentidos

 

Ao fim do dia já quase não mais sabemos quem somos

Máquina, mulher ou homem? Um retrato de nós mesmos

A cada dia que passa estamos mais longe do horizonte

Dama de vermelho

A dama de vermelho mora a quatro quarteirões da times square. todo dia ela acorda de madrugada, veste algum de seus vestidos vermelhos de grife, um chapéu preto e um sapato também preto. acende um cigarro, toma uma dose de gin, sobe para o último andar do edifício mais alto da cidade e observa o sol nascer. durante o dia, ninguém sabe quem ela realmente é, durante a noite, não há nenhum ser vivo que já não a tenha visto pelo menos uma vez durante a vida. dizem que ela já teve inúmeros amantes, nenhum sobreviveu para contar a história. a fumaça invade o quarto quando a lua aparece no horizonte.

a dama de vermelho sorri quando o sol deixa de brilhar nos olhos dela e o ciclo começa novamente.

Um novo até logo

ela se foi novamente, da mesma forma que o sol se põe no horizonte e dá lugar à luz da lua. ela se foi, levando consigo metade de mim, meu eu sozinho que já quase não consegue sobreviver sem a sua presença. o adeus dali machuca tanto, de volta para minha solidão e o silêncio que se faz presente. o barulho do ventilador ligado, o tlec tlec do teclado do notebook, os clicks rápidos no mouse. hoje mais do que nunca eu sou inimigo do tempo, da areia que desce na ampulheta, querendo que a mesma desça o mais rápido possível. não sei exatamente quantos dias vamos ficar ausentes um do outro, inimigos da própria despedida. espero dar tempo ao tempo, tentar preencher com futilidades todo esse vazio que me assusta, que não me assustava há tempos. uma profunda sensação de insuficiência e principalmente de solidão. seria isso tudo que sobrou de mim nesta noite abafada com clima de verão? não sei, por hoje sim.

Smoke

smoke it to the last breath on your bones

delve in the smoke before the rain pours

inhale the gray phantom as you look to the horizon

flick the cigarette ad watch the traffic as time slides away

people look at you when you are about to light your fire

they try to deceive you, languish you

the truth is, they know nothing about you

they suggest you quit Marlboro and adopt the pipe

you, on the other hand, is fond of tobacco and nicotine, no regrets

you see the world through those dark glasses immersed into the shadow

your vanilla purse, your jimmy choo shoes, your gucci clothes

they mean nothing when the light fades into the night

you wake up from a bad dream and realize that the smoke is gone and won’t follow you another day

Cirice

Are you feeling down right now? Unloved, alone and tired? Are you carrying the weight of the world on your shoulders? Do you think all hope is lost? Are you afraid to get close to another person? Can’t trust anybody? Need some space to yourself? Everyday seems like a struggle to you? Do you think true love only exists on movies and tv series? Do you look in the mirror and see somebody else? Does your mind feel eerie most of the time? Did someone change your life forever in a way it was not supposed too? Do you need a hug right now? Maybe a bottle of whiskey? Need someone that really looks at you in the eye and smile? If any of the previous questions are somehow true, don’t worry, it will pass eventually. I have faith in you. I saw it happening, you just have to have faith in me too.

travelling

travelling away with my thoughts while the sky is painted with shadows of gray. my mind goes to so many places i’ve never been too, does it work the same way with the heart? i barely breathe as the air is filled with void, i try to save myself heading to the woods, willing to get some fresh air, got caught in a muddy swamp instead. a deer walks right in front of me, not afraid, cauz he knows i ain’t gonna do any bad to him. would never do. i see a comet falling from the sky, i make a wish while it disappears on the horizon, no one is there for me, except for myself. i build myself a tent, reach some dry sticks and finally there is fire to make me survive through the night. when i get up on the next morning, there is a lot of people around me with cameras, guns and spotlights, asking me who i was and what the hell i was up to. i guess nothing ever changes.

through the glass

talking to you is like a breeze in the summer, fresh and warm at the same time. who could’ve imagined that in the middle of that toxic place we would find each other. this happening made me still have faith that the world can be a better place, on the hands of the right people. play that guitar tune for me, which we both adore. let the rain pour down on the grass while we are both chatting inside. would you join me for a glass of whiskey? would you forget all the pain that was caused to you? would you hug me as the wind blows outside? wrote you this letter cauz i don’t know if i will be able to tell it all in person.

 

 

 

 

Soturnamente

O tempo vem se esvaindo conforme passam as semanas. Parece que foi ontem que eu estive aqui, cercado por estes devaneios. A fugacidade das coisas me deixa preocupado, mais que essa chuva que cai sem cessar. Acordamos todos os dias cedo e ainda está escuro, a neblina mal faz enxergar o que está na nossa frente. Com qual finalidade? Quem garante que nossos sonhos e anseios serão atendidos? O gênio da lâmpada me disse que ele não irá sair ali de dentro. Desejei paz de espírito, felicidade e sucesso, por enquanto, o mais próximo de mim tem sido o primeiro mencionado. Quanto tempo levará para atingir os outros dois?

Desalento

a dor do outro é algo mais comum do que se imagina, e eu a senti. ao me deparar com a soberba e maliciosidade do poder judiciário que indeferiu o pedido de pensão alimentícia após a exoneração de um contrato de aluguel. mexeu comigo de tão longe, me embrulhou o estômago, por imaginar a dificuldade que esta mulher e seu filho pequeno estão passando, por mesmo estando inserido nesse meio não poder fazer absolutamente nada para ajudar. a não ser dizer tudo isso aqui, para quem sabe um dia alguém leia e saiba como muitos órgãos públicos funcionam no nosso país. tudo extremamente lento, tudo extremamente burocrático, aos olhos pessoais tudo é urgente, devendo ser feito na hora. quando é a terceira pessoa do singular tudo pode esperar, mesmo que esteja sem teto, com fome. é assim que funciona a justiça brasileira. sinto um profundo ódio internalizado, que espuma no meu estômago e na minha garganta, respiro até ofegante, com dificuldade. isso vai muito além de tudo aquilo que a mídia anuncia e que as pessoas não tem acesso, pois é tudo quase restrito, onde nós temos que prestar esclarecimentos por tudo, compras no supermercado, farmácia, roupas, restaurantes e todas as outras necessidades básicas, enquanto os coronéis estão no poder dando risada. se o deus onipresente e todo poderoso realmente existisse, nós mesmos teríamos o crucificado. o diabo se diverte enquanto resta apenas esse sentimento chamado desalento.

Vento Frio

você se foi e um inverno cresceu aqui dentro, está tudo quieto, um silêncio aterrorizante. não me ensinaram a aceitar a falta que você me faz. o Brasil foi eliminado, foi triste, não tive ânimo nem para tirar a cerveja do frigobar. vai esfriando também lá fora, não escuto um passo sequer, nenhuma ligação. escuto músicas tristes pois não há mais nada a se fazer, meus supostos amigos estão todos distantes, estou cada vez mais só eu. eu e só. ainda faltam 14 dias, não sei o que fazer até lá, esperar o tempo passar enquanto trabalho, é o que sobrou para mim nesse começo do mês de julho. o sol já desapareceu um pouco e as tardes agora são cinzas. o dia vai acabando mais cedo. volta, volta porque sinto tua falta, volta, porque não existe dia e noite sem você.

Time

eu só queria sumir um pouco ou sumir de vez. onde ninguém pudesse me encontrar, onde não pudesse haver nenhum rastro meu. a vida tem me cansado de um jeito, tenho estado preso num loop, já faz tempo. sem que eu consiga me desvencilhar dele. a fragilidade das coisas que se partem em dois não me deixa fugir. é angustiante viver dia após dia assim, como se a vida que vivo não fosse minha e sim de um alter ego que não dei permissão para existir. infelizmente não é. tenho ficado perdido no tempo esquecendo as oportunidades que eu perdi. vivendo numa realidade alternativa onde eu sempre poderia ter feito mais. não me sinto culpado ou frustrado, e sim cansado de ter que acordar e recomeçar tudo outra vez. – café da manhã, faculdade, entrar no ônibus, ir para o trabalho, ouvir as mesmas piadas de mal gosto e machistas, sem sentido. prestar um serviço que não gosto e não poder me livrar dele, por enquanto, pois há contas e mais contas a pagar. ir embora de mau humor e calado; pois o meu horário disponível não permite que eu encontre nada melhor do que isso. chego exausto, desnorteado, com fome, desejando que caia um meteoro gigante na terra e acabe com o sofrimento de todos de uma só vez. – viver nesse espaço de tempo tem sido meu pior pesadelo, nada que eu faça de diferente parece conseguir me tirar dessa roda gigante. onde é que eu comprei o ticket? pois não me lembro de ter autorização para entrar nesse universo em forma de elipse sem ter permissão.

Kiruna

marcham sobre o campo de batalha milhares de vikings sedentos por glória e derramamento de sangue. as oferendas já foram dadas a Odin, todos estão destinados ao Valhalla, onde há cerveja, carne e festa para todos guerreiros honrados. os jovens guerreiros tremem ao se juntarem à parede de escudos pela primeira vez. os mais antigos dão risada disso e começam a cantar em tom avalassador enaltecendo a Freyja e Thor. os inimigos aproximam-se rapidamente montados em cavalos; ingleses e escoceses que deixaram as diferenças de lado e agora são um só exército que defende a fé cristã. enquanto isso, na Ânglia Oriental, as esposas rezam incansavelmente, pedindo que seus maridos voltem sã e salvos desse inferno na terra. nas igrejas, os padres saxões também rezam, desejando que o santo rei não morra em combate, pois não deixou nenhum herdeiro homem para a linhagem de sucessão, uma lástima aos olhos de todos, principalmente dos príncipes e duques aliados.

in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. amen.

mal sabem que, quando soarem as trompas de batalha e os tambores forem atingidos, não haverá um lugar sequer na grã bretanha que não estará em pedaços e chamas, para a ira de Deus.

Abismo

o dia estava cinzento e frio logo pela manhã, perfeito para se perder no abismo. Havia um nevoeiro sinistro e as pessoas na rua se moviam como fantasmas sombrios. Alguém tinha morrido em Porto Alegre e eu sabia que tinha. Senti uma aura de morte no ar pesado e tempestuoso que entrava pelas janelas podres. Três dias depois veio a confirmação do óbito, uma morte dupla: um parente da mulher e o cachorro, que partiu desta vida enquanto sua dona foi lamentar a morte de outra pessoa. O ar desta vez estava penoso e pesado, parecia um dia de luto, ou só mais um dia comum. Eu já estava vestido de preto, pressentindo o pior. Falamos o mínimo possível sobre a velhice, sobre cachorros, sobre nossos empregos infelizes e sobre pesar. Não havia clima, nem possibilidade de diálogo naquele momento pela manhã. Algum tempo depois, tocava uma música de merda na padaria, parecida com o gosto da comida. O suco tinha gosto de vômito na madrugada dos bebuns e das prostitutas, tinha uma textura tenebrosa. A música depois tocava alta, explodindo nos dois tímpanos, bateria, guitarra, baixo, amplificadores e pedaleiras. Finalmente, desci pela rampa e me deparei com um espelho de cristal verde, que penetrou fundo na escuridão da alma; nele vi o passado, presente e o futuro novamente. Tive medo de tropeçar e cair no abismo, desviei o olhar daquela ilusão maligna cor de esmeralda, saí e não olhei para trás.

Faith

é o ato de acreditar no que não se pode ver nem tocar, apenas sentir. Tal como a brisa que leva o tempo e carrega as nuvens pro sertão molhar. Tudo que aprendi sobre a fé é esse arcabouço de ideias e crenças que resolvi adotar para mim mesmo. Fui criado e educado na igreja católica, porém seus ensinamentos pouco ou quase nada significam para mim. Eu nunca vou conseguir enxergar a sociedade do jeito que a paróquia insistiu que eu acreditasse ser a ideal. A fé é uma coisa maluca, pois uma vez acreditando nela, é um caminho sem volta. Não confunda fé com religião, pois, por mais que pareçam caminhar juntas, elas caminham por trilhas separadas. Eu não tenho nenhuma religião, mas acredito em algum Deus, São Jorge, Ogum e Oxalá. Sou discípulo de Thor e Odin, e espero alcançar o Valhala quando a hora chegar. A minha fé não aprendi nos livros, não tem nome e muito menos descrição. Acredito no mundo espiritual, porque às vezes escuto vozes vindas de lá (é médium que chama?).

carta vazia

Cada dia nessa cidade faz com que a ideia se construa mais fraca, no lembrete que eu deixei, estava escrito: até felicidade demais mata.

O comportamento das pessoas é um negócio curioso, o ato de conhecê-la não é retrato, é só esboço.

Se tu parar pra refletir demais, acaba dando depressão. Quantos produtos tu tens que vender pra ter a tua tão sonhada comissão?

Sem mencionar esse buraco sujo que se chama faculdade, acaba com sua gana de viver, não importa qual tua idade.

Eu volto pro começo, esqueço o preço, desconheço o preço que as pessoas dão pra esse fenômeno de se afastar. A presença do cigarro e da cerveja é indispensável no bar. Quantos me prometeram lealdade e fugiram quando viram eu me afundar?

Eu to pouco me fudendo pra tua formação acadêmica, pouco me diz o teu mestrado, o teu doutorado.

As palavras de vocês são mais vazias que minhas próprias cartas, que batem no silêncio do teu ego e voltam sem trazer o recado. Olha que estamos apenas em abril.

Globo

Na trocação de ideia atual, a juventude tem por objetivo supremo o sexo. Fala o que não pensa, diz o que não quer, só papo sem nexo. A foto que mostra metade da bunda deixa o povo perplexo. Finge demonstrar interesse, finge gostar de novela, poesia, música antiga, tu imagina um absurdo desse? Sentimento iludido, tendo orgasmo falso; em piso de asfalto quente tu vai querer mesmo andar descalço? Tua falta de sapiência alega um ego frágil, toma o tempo e atenção dos outros alegando carência. Comportamento desprezível, é tão fácil enaltecer simplicidade num hotel 5 estrelas, incrível! Persona non grata, egoísta, estupefata, juventude hipócrita, vê se sai desse mundinho cor de rosa e cria uma personalidade própria!

Esgoto

calçada esburacada, mendigo deitado. bmw que fura o sinal vermelho. motorista que fala o tempo todo no celular. patricinha que dá risada dentro de uma jaguar. no salão tem hora marcada, refém de uma mídia barata que desfila com sua bolsa da Prada. juiz que assina a sentença mas quer discordar. tem medo de raciocinar. playboy mal educado rouba a vaga de alguém que quer estudar. criança que olha pelo retrovisor e sente medo. mauricinho otário passa buzinando pelo meio dos carros. político corrupto, vagabundo nato. rato que sai do esgoto e tira uma lasca do prato. mulher agredida pelo marido que continua no anonimato. colarinho branco que rouba mas o pobre é sempre que paga o pato. governo que finge não ver a mala de dólar no meio do mato. se apegar a essa mulher é uma tremenda cilada. respeito que vai nem sempre volta acabado. se não sente o que diz é melhor permanecer calado. jovem é encontrado morto a tiros, o corpo do pobre coitado foi despejado e encontrado no fundo do esgoto.

Nagasaki

Ninguém soube me dizer o que havia de errado com o mundo, todos só falavam de política, doenças venéreas, fome e melancolia. Quando alguém acende um cigarro em Los Angeles, uma tonelada de salmão é retirada nos portos do Japão. O que isso tem a ver com tudo que sinto e manifesto? Também não sei, mas há algo que me perturba todos os dias, e às vezes faz-me acordar durante a madrugada, com a testa escorrendo suor e o coração agitado. Gostaria de chamar esse estado da mente/espírito de desencanto do mundo, mas o encanto do mundo já se perdeu faz tempo. Os amantes em Paris tiram fotos superficiais, a ponte dos cadeados já teve excesso de peso, a sua xícara de café esfriou. Quando os dias estão tão cinzas assim, o que é muito comum, vejo tudo assim, descompassado. Vejo um malabarista naquelas bicicletas de uma roda só, um cachorro cego, uma pessoa descalça. Pode fazer pouco, ou nenhum sentido que tudo isso esteja interligado, mas de qual lado nós estamos: dentro de um tanque de guerra pronto para atirar, ou em frente a ele segurando uma flor?

Manifesto

Por mais que eu tente, não consigo planejar tudo que eu faço, não quero ser refém do meu próprio destino. Quero, de vez em quando, ser levado pelos acasos. Sempre tive dentro de mim um espírito aventureiro, não consigo ficar preso a um lugar durante muito tempo, não sou egoísta o suficiente para monopolizar sentimentos e pessoas. Tudo o que sinto e desejo é meu, e também do mundo inteiro.

Dead men tell no riddles

Tenho em mim todos problemas do mundo.

 

inalei aquela fumaça que faz-me tão mal, só para ver-te tão bem. longe dos olhos da solidão, eu vi que não era ninguém. aquelas luzes escuras incumbiram-me de abraçar os enigmas da noite. faz frio e a cerveja no copo do boteco da esquina parece dar vida aos mortos. as luzes dos faróis cegam-me, já não sei para onde mais eu posso olhar. entro por aquela porta depois da descida de paralelepípedos, a caminho do caos e perto do bar. a mulher do balcão atende-me com um sorriso cheio de lascívia, os olhos dela fitam-me tentando decifrar a minha alma, sem sucesso. o tempo congelou naquele instante, como se estivesse em uma cena dos filmes de tarantino. este foi o ato II. o frio aumenta e a cerveja gelada já não faz mais efeito no meu organismo. a música psicodélica ludibria o meu cérebro e o cérebro de todos os presentes naquele ninho demoníaco. as roupas escuras revelavam curvas tendenciosas e perigosíssimas. já não tinha mais controle sobre o meu corpo, que balançava com o ritmo da música e a voz do vocalista da banda que emulava the doors. todas aquelas cores eram tão vivas, e eu só via cadáveres se movendo ao meu redor. até que me ofereceram uma bebida verde que tinha o gosto da morte. morri um pouco por dentro quando o som pareceu cada vez mais alto e chegavam cada vez mais pessoas. ato I.

Intangível

como a chuva que cai lá fora. Música aos ouvidos e o tempo suave que nunca mais voltou. Assim são as coisas mais bonitas da vida: intangíveis. O vento que sopra e esfria a noite, o calor humano que esquenta as manhãs mais frias. O sorriso daquela mulher quando enxerga aquele homem, espanta, arrepia. A vida vai passando sem que a gente perceba , juntando todos os cacos e coisas que julgamos ser imprescindíveis. Sem saber que tudo que digo aqui é intangível, sem motivo e sem explicação. Sem esperar que alguém leia ou ache interessante.

Intangível.

Cosmos

Estavam os dois, ele aqui, ela acolá, separados por um cosmos indivisível. Perdidos no espaço. Cada molécula de si anseia pela presença do outro, como dois pólos magnéticos esperando-se que vão galvanizar. Cada um olhando por uma janela, esperando pela estrela cadente do outro pelo campo visual passar. Não podiam estar mais juntos em meio a tanta solidão. Às vezes é tão bom ser só, e ter autonomia de paz, mente e espírito, mas corro, grito e busco confirmação e compreensão, bipolarizado entre perceber que tantos caminhos levam à solidão, e só um me leva até você. O mundo anda tão triste, mas o encanto não se perdeu. O poeta confirmou. E eu compreendi.

Alive

Look outside, it’s been the same everyday. The air that you breath, the rain that you take. The bus that leads you to places. I feel alive, the corpses have emerged from their coffins. I walk, and i dream, and i feel, and i learn and i forget. People give me nauseas, my shoes got wet. Forgot my umbrella. I step on the grass, i take detours from the dog shit. There are so many beggars on the street. And i sleep, and i dream again, and i wake and i keep going. Steady and back to the darkness where everything belongs.

These dreams

Lately I’m having these dreams that keep me up at night. Last night I dreamed I was a doctor and I gave birth to an unborn child, I knew the baby’s mother, whom I’ve known for years. The other night I dreamed I was driving a car on a highway with a lady I deeply loved in the past, and a vicious truck hit us and we fell off a cliff causing both of us to get killed. Today I saw her and she was dressed up entirely in black, as she was griefing; she never wears black clothes. My head got twisted up real bad, as if someone was playing games within my mind. Maybe I’m just delusional but these are the kind of dreams that keep me up until dawn. If somebody visits me tonight, let me save some time to hide my soul. Sincerely, p.

Makes me Proud

My sister got a certificate a couple of weeks ago, I can’t say how immensely that made me feel proud. She was elegant in her dress, like she was going to a paris concert in the 70’s. She was astonishing. I wish I could give her a strong hug on that special date. I can’t believe how time has passed as she became such an incredible lady. I wonder if I ever made anything right in my life, but I guess I’ll have to keep my eyes on the distance. The world is yours to conquer, sis, just chase it. I’m very proud of you.

Dearly, big brother.

Hazy Days

“Mr. Page in canvas walks on the sidelines without making a single sound.”

The streets smell like piss and there is no place for the homeless. These hazy days make jokes of no one. Every morning feels like a nightmare, even though Page has a good life, sometimes it’s just a bless from the skies to stay inside avoiding the rain. Many cars are roaming on the sideways with motorcycles and bus just behind. Oh yeah, don’t forget the bikers and the skaters. His long time school known fellas and ladies are all set up with a made life, while he is lost in time trying to find his own directions. That makes him fucking depressive and unfaithful but he just goes on the rhythim of the tides as the wind blows his hazy days.

to be continued…

When it rains it pours

”Last night I dreamed I was you.”

I was walking through a thematic park with roller coasters and white shoes. The sun was high and the weather was hot. I could see on other people eyes that I had something in me, like a spirit or a ghost of you. You were happy as everyone. Everything was so vivid and clear, I couldn’t notice if was not for the people stares. There was a time that life was so alive. There was a time that voices could keep me warm at night. Which or which or who is who? I am me or who are you? Electric forces always go into two different directions, positive or negative. I was thunder, you were lightning. Sparks between the two forces became fire and got ourselves burned into the sky. There is a place that is only four hundred miles away. A place where the road is all covered in rain and there is something hidden in the water. How many times have you crossed that bridge? You see me but I don’t see you, we both have someone now. The ghost of you in me sees the happiness in you, and perhaps I teached something for you. You were a sister to me and I was a brother for you, as simple as it looks, family is more complicated than it seems. There are things which are better left unsaid, and maybe a picture is not the best way to say goodbye to someone. Last night I dreamed I was you, as you were covered in blanks to be warm at night. I am all that is lost and don’t want to be found. I am all that is forgotten and forever. You will always be the sister in me. Wish I could be more than a ghost in you.