Abismo

o dia estava cinzento e frio logo pela manhã, perfeito para se perder no abismo. Havia um nevoeiro sinistro e as pessoas na rua se moviam como fantasmas sombrios. Alguém tinha morrido em Porto Alegre e eu sabia que tinha. Senti uma aura de morte no ar pesado e tempestuoso que entrava pelas janelas podres. Três dias depois veio a confirmação do óbito, uma morte dupla: um parente da mulher e o cachorro, que partiu desta vida enquanto sua dona foi lamentar a morte de outra pessoa. O ar desta vez estava penoso e pesado, parecia um dia de luto, ou só mais um dia comum. Eu já estava vestido de preto, pressentindo o pior. Falamos o mínimo possível sobre a velhice, sobre cachorros, sobre nossos empregos infelizes e sobre pesar. Não havia clima, nem possibilidade de diálogo naquele momento pela manhã. Algum tempo depois, tocava uma música de merda na padaria, parecida com o gosto da comida. O suco tinha gosto de vômito na madrugada dos bebuns e das prostitutas, tinha uma textura tenebrosa. A música depois tocava alta, explodindo nos dois tímpanos, bateria, guitarra, baixo, amplificadores e pedaleiras. Finalmente, desci pela rampa e me deparei com um espelho de cristal verde, que penetrou fundo na escuridão da alma; nele vi o passado, presente e o futuro novamente. Tive medo de tropeçar e cair no abismo, desviei o olhar daquela ilusão maligna cor de esmeralda, saí e não olhei para trás.

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