Poção

Escrevo para ninguém. Meus textos não são para ninguém além de mim, quando me olho no espelho. Uma auto-crítica, reflexo num espelho côncavo-convexo. As palavras tem mágica. Feito magia e poção. A gente nunca sabe quando o eu deixa de ser nosso e começa a se esconder em outro alguém. Quando não nos pertencemos mais, adentramos num jogo perigoso, onde o jogador principal passa a querer controlar todas as ações, dominar situações. Nos tornamos dependentes, sem perceber. Por essa dependência, as pessoas tendem a se sentirem donas de nós, não buscando contato, o mínimo de afeição. Imaginando que nós, os outros jogadores, obedeceremos às regras deste jogo. Imaginando que nós vamos atrás do que era nosso por direito. Ou o que era para ser. Eu não obedeço à nenhuma regra, e até que me divirto com essa história de saudade de um lado, e desapego do outro. Depois de um tempo, é fácil perceber quando alguém faz questão da nossa comunicação. Quando não, nossas palavras são apenas vozes no vazio, que fazem eco e não trazem nenhuma resposta. Pessoas fingem que não leem, fingem não estar ali, quando o que mais queriam era apenas ter certeza que a nossa presença estava ali. Quando sim, a magia entra em ação novamente, e nos momentos mais inesperados aparecem letras no vento. Surgem com eles as palavras mágicas e também venenosas. ”Senti a tua falta.” ”Por onde você andou?” ”Eu nunca mais te vi por aqui.” Às vezes nem isso, apenas surge o modesto ”olá, tudo certo?” A gente nunca sabe quando essas palavras são ditas com a pureza na alma ou com a perversão da mente. Difícil saber quando estamos ali de fato pelo nosso mérito, ou só estamos tapando o buraco que alguém deixou. A pior distância está presente na presença de duas pessoas. Como já disse e direi outra vez: na distância tudo se fortalece, mas também nela tudo se pode perder e desaparecer para sempre. Às vezes me pergunto onde é que eu erro, e a resposta aparece de súbito: eles não sabem o que dizem, muito menos o que fazem. Alguns sabem exatamente, todos tem seus motivos, mas nem sempre tem razão. O poder de ler mentes cairia bem em mim, como uma meia de lã num inverno rigoroso. Não para manipular o presente e o futuro, mas apenas para economizar minha energia e tempo com gente que não merece um segundo do meu tempo, nem um pingo de atenção. Ainda não inventaram uma poção para isso, entretanto, a mágica já está fluindo por aqui.

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