Post-mortem

A morte sempre tem histórias para contar, e ela sempre diz olá. De vez em quando aqui, vez em quando acolá. Tudo ficou escuro, e o olhos se fechavam e piscavam em pequenos pontos brancos. Distantes. O coração diminuiu o ritmo, a pressão arterial e a oxigenação do corpo idem. O sal e o açúcar entraram em conflito com o líquido vermelho universal. Os anjos com suas áureas douradas tocavam harpas desesperadamente. Um protegido dos céus estava se despedindo da vida, sem passar pelo juízo final. Os feitos em vida talvez pesariam para o lado oposto, subterrâneo. De um jeito ou de outro, as canoas de ceifeiros aguardavam miraculosamente a próxima vítima. Silêncio, descrença e um cintilo de fé. Uma combinação não muito agradável para quem desejava atravessar os portões brancos de Éden. Gritaria, semi-infartos. Pessoas desesperadas. Telefonemas. Por um momento o mundo havia acabado, e a pergunta pairava no ar: será isso que resta depois do fim? Um frio aparentemente eterno, vazio de almas, a libertação e a remissão de todos pecados. Liberdade para ir e vir no meio do nada. Todas memórias desaparecendo do mapa. Toda vivência e histórias de vida indo para o subconsciente de uma outra memória. Uma outra memória que já não se encontrava mais ali. O pensamento criador tinha criado seu próprio fim. Irônico e ao mesmo tempo supérfluo. Indigente. Espamos involuntários numa cadeira cinza. Gotas de sangue recém caídas após o choque com a haste de ferro. Tudo isso, sem perceber. Mas depois, perverso, e impossível de não virar uma lembrança. Até que o buraco negro de pesadelos reais e límpidos acabou; pôde fugir da morte e não morrer ali mesmo, sonhando com a vida. A morte pareceu eterna ali, e, por um instante, pensou que fosse ir embora de sua coexistência. Sem chama, sem vento. Um sopro de vida, que quase esqueceu de dizer adeus.

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