Trechos de ‘Teatro Completo’ – Parte 1

Selecionei alguns trechos que gostei desse excelente livro do Caio Fernando Abreu. Nele, se encontram algumas peças de teatro.

 

BABY – Quando olho para mim mesmo, não gosto do que vejo. Mas quando olho para você, gosto muito menos. Os amigos desaparecem no momento exato em que você precisa deles. O mundo te machuca. As pessoas te empurram nas filas, dentro dos ônibus, nas esquinas. Tudo grita na sua cara que você não vale absolutamente nada. Quando olho para você, quando olho para mim, não posso evitar de pensar que o homem é apenas um animal que não deu muito certo. (Páginas 18 e 19.)

 

BABY – Não espero nenhum olhar, não espero nenhum gesto, não espero nenhuma cantiga de ninar. Por isso estou vivo. Pela minha absoluta desesperança, meu coração bate ainda mais forte. Quando não se tem mais nada a perder, só se tem a ganhar. Quando se pára de pedir, a gente está pronto para começar a receber. O futuro é um abismo escuro, mas pouco importa onde terminará a minha queda. De qualquer forma, um dia seremos poeira. Quem é você? Quem sou eu? Sei apenas que navegamos no mesmo barco furado, e nosso porto é desconhecido. Você tem seus jeitos de tentar. Eu tenho os meus. Não acredito nos seus, talvez também não acredite nos meus próprios. Não lhe peço que acredite em mim. (Páginas 19 e 20.)

 

B – Você não é a única pessoa no mundo. Esta não é a única casa. Este não é o único país do mundo. Este não é o único planeta. Nem o único sistema solar. Você não passa de uma poeira. Mas, sendo uma poeira, você é tudo também: uma pessoa, a casa, o país, o planeta, o sistema solar, o universo… (Página 25.)

 

BABY – Olha, meu santo, certeza eu não tenho mesmo de nada. Nem sequer de que estou realmente vivo. Eu sei de agora, me entende? Agora basta um teto, é melhor do que ficar naquela chuva fria lá de fora. Amanhã não sei. Pode ser que… (Fica quase sério, mas muda logo de atitude.) Olha, quer saber duma coisa? É melhor não aprofundar muito, não. Quando a gente aprofunda demais acaba caindo sabe onde? No inconsciente coletivo… (Página 67.)

 

MONA (Incisiva.) – Já não falei pra você que intelectualismo não é comigo, Baby? Abaixo a razão e o pensamento! O negócio é só sentir, meu irmão, só sentir. Pensar já era. Pensar acabou, não se usa mais. Desde que parei de ler fiquei muito menos neurótica… (Página, 68.)

 

MONA (Mansa.) – Sei lá, tem sempre um pôr do sol esperando para ser visto, uma árvore, um pássaro, um rio, uma nuvem. Pelo menos sorria, procure sentir amor. Imagine. Invente. Sonhe. Voe. Se a realidade te alimenta com merda, meu irmão, a mente pode te alimentar com flores. Eu não estou fazendo nada de errado. Só estou tentando deixar as coisas um pouco mais bonitas. (Página 75.)

 

LEO (Irônico, interrompe.) – Já ouvi esse papo antes. O mar, o campo, a volta à natureza. Faz cinco anos que eu conheço você, João. Faz cinco anos que você fala a mesma coisa. A mesma coisa. Sempre. Que idade você tem? Eu sei: 25, 26, 27 – não importa. Você já não é tão jovem. Eu já não sou tão jovem. Não falta muito pra você ter 30 anos. O seu cabelo já começou a cair, você já não acredita tanto nas pessoas, os seus dentes estão ficando estragados. As coisas vão ficar cada vez mais duras. O seu corpo vai se decompor lentamente e você vai criar barriga e acreditar cada vez menos em todas as coisas, em você mesmo. O campo, a terra, o mar, a natureza – vão ficar cada vez mais distantes. E um dia tudo não vai ter passado de um sonho. Um dia você vai lembrar de tudo e pensar com tristeza: ”loucuras da juventude.” E todo esse tempo de agora não será mais que um longo tempo perdido, inútil, jogado fora. Quanto mais você ficar aqui, mais poluído você fica, mais envolvido com a cidade. Cada vez é mais difícil de você se libertar. Por que é que você não vai de uma vez? O que é que você está esperando? O que é que você está fazendo para realizar o seu sonho? (Página 83.)

 

BABY – (Muito próximo.) – Você não me entende porque você nos divide em dois: eu e você. Não existe divisão. Eu não sou só eu. Eu sou também você e todos os outros, e todas as coisas que eu vejo. Você não me entende porque você nunca me olhou. Olhe firme no meu olho, me encara fundo. A gente só consegue conhecer alguém ou alguma coisa quando olha para ela bem de frente, cara a cara.  (Página 84.)

 

 

 

 

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