Borrões

numa tela de aquarela recém adquirida. O pintor em sua humilde mesa de granito cria universos paralelos e retrata o que poucos olhos são capazes de compreender. Para alguns, apenas manchas distorcidas, para outros, arte moderna, cubismo e até dadaísmo. As ideias divergem no papel para depois serem transcritas. Depois das duas. O andarilho de Pequim se  perde em meio ao nada, perdeu-se tanto no nada que o nada virou ele próprio. São borrões que se formam em qualquer história mal escrita. Do início ao fim. No ataliê o tempo voa, o silêncio predomina em boa parte do ambiente. As cores dão vida aos traços e dos traços forma-se uma figura sombreada. Sombras de luz, muita luz. O horizonte é um infinito próximo ao artista, e dele nada pede, porém tudo leva. O presente é um futuro distante, perdido entre o tempo e a memória. Divagar faz parte do devaneio. A vida inteira perseguindo borrões, no chão, nos livros, nas paredes, na pele, feito um indígena que se misturou com costumes chineses. No caminho do artista, as pedras em vez de obstáculos, viram pontes, muralhas e castelos. Preceitos que ainda vigoram desde a idade média. Um inimaginável que só é imaginado em mentes diferenciadas. As memórias do pintor são flashes prolongados no meio de seus flashbacks. O que ele vê foi sempre tudo que ele sonhou, e vivenciou; como sopros de vida em um planeta distante. Às vezes, uma trilha tem só o caminho de ida. O perigo é não saber de onde vem o borrões. Felizmente, ele sabe. Eu também.

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