Carona

O amor é uma carona, valeu pela viagem.

De repente meu castelo de areia desmoronou com a maré, e desapareceu como uma onda no mar. Eu estava ali naquela praia deserta enxergando miragens e você estava ali de costas com a bunda torrando no sol. Intimidade é uma merda, eu sei. Depois de duas horas de trilha nós finalmente chegamos naquele paraíso natural escondido no mapa. Cheguei a me perder só para encontrar o pôr do sol, os raios meio amarelos, meio alaranjados, refletiam nos seus olhos da cor do mar, que mudam de cor, dependendo dos dias. Uma vibe incrível, e inesquecível. Ali. O astro maior repousou só para dar lugar à lua. O amor maior repousou só para dar lugar à saudade. Costumava dar uma saudade, de vez em quando, quando pensávamos que poderia ser diferente. Já não costuma mais. Mas não falo de amor, não, não; mas, amor, amar, é coisa de gente grande, então deixei pra lá. Sou novo ainda, um moleque, tão moleque que qualquer moleque via como eu era adulto quando estava próximo a você, sentado no banco da praça, ou na grama de cima daquela montanha, acidente geológico da natureza. Ou em qualquer outro lugar, que não fosse aqui, dentro de mim, pois aqui dentro tudo é bagunçado, redemoinho de ideias, órgãos, sentimentos e líquidos. Bem humano assim mesmo, visceral. O dia havia acabado e a luz da lua sempre guiava nossos passos no meio daquela escuridão vazia. Ao chegar no hotel, aquele banho quente que escorre pelo corpo e purifica tudo de ruim que há. Havia também um esboço de meditação enquanto o barulho do chuveiro aliviava e trazia paz. Depois disso, devidamente arrumados, passeios pelo centro e lugarezinhos históricos, uma simpática feirinha hippie a beira mar e vários caiçaras vendendo micharias de madeira ou de algo exótico extraído da mata. Exaustos, o sono veio como vem a um bebê, depois de mamar. Suave e tranquilo. O dia amanheceu azul, o sol loiro fritando no céu. Era chegada a hora, arrumar os pertences e ir embora. A diária acabou. Entramos no carro e pegamos a estrada que é mais segura sem você, aquela que me leva de volta para o inferno pessoal de nós dois. No final, tudo vale a pena se a alma não é pequena, como já dizia Fernando Pessoa; minha alma é do tamanho daquilo que eu enxergo, e ela é do tamanho do mundo, mas cabe na palma da sua mão. Não precisei pedir carona, então, valeu pela viagem, mais uma vez.

PS: Valeu a pena, ê ê.

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