Trechos

”Separava perigos do grande perigo, e era com o grande perigo que o ser, embora com medo, ficava. Só para sopesar com susto o peso das coisas. Afastava as verdades menores que terminou não chegando a conhecer. Queria as verdades difíceis de suportar. Por ignorar as verdades menores, o ser parecia rodeado de mistério; por ser ignorante, era um ser misterioso. Tornara-se também: um sabido ignorante; um sábio ingênuo; um esquecido que muito bem sabia; um sonso honesto; um pensativo distraído; um nostálgico sobre o que deixara de saber; um saudoso pelo que definitivamente perdera; e um corajoso por já ser tarde demais.”

”Tudo isso, contraditoriamente, foi dando ao ser a alegria profunda que precisa manifestar-se, expor-se e se comunicar. Nessa comunicação o ser era ajudado pelo seu dom inato de gostar. E isso nem juntara nem escolhera, era um dom mesmo. Gostava da profunda alegria dos outros, por dom inato descobria a alegria dos outros. Por dom, era também capaz de descobrir a solidão que os outros tinham em relação à própria alegria mais profunda. O ser, também por dom, sabia brincar. E por nascença sabia que gestos, sem ferir com o escândalo, transmitiam o gosto que sentia pelos outros.”

”Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar! sei que é ignóbil  ter entrado na intimidade de alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar – não conte, só por carinho não conte, guarde pra você mesmo as vergonhas Dela – mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ela fez, vou estragar a Sua reputação.”

”Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar era fácil.  É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar do meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque eu ainda não sou eu mesmo, e então o castigo é amar um mundo que não é ela. É também porque eu me ofendo à toa. É porque eu esqueço que quem nasceu depois foi ela. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimoso.”

”E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntimo do mundo, mas este mundo que ainda extrai de mim um grito.”

”Talvez eu me ache delicado apenas porque não cometi os meus crimes.  Só porque eu contive os meus crimes eu me acho de amor inocente.”

 

 

 

ps: com algumas poucas alterações de gênero

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