A casa do lago

Clarice andava despreocupada pelos bosques, apreciando a paisagem, fechando os olhos enquanto o vento soprava, aliviando um pouco os pensamentos. Não estava perdida, estava apenas procurando o seu lugar nesse louco mundo cão. Sabe que as pessoas olham pra ela abismadas, sorri ; Continua andando sem rumo. Sua bolsa está carregada com o estojos de maquiagem, carteira, livros, e um pouco de dinheiro. Não sabia o que fazer com ele. Deparou-se com uma loja de brinquedos, decidiu entrar. Relembrando os tempos em que algum adulto presenteava-a com bonecas. Saiu da loja e foi em direção ao parque da cidade. Ao chegar num lugar silencioso, calmo, e quase sem pessoas, ela estendeu uma toalha de mesa, e montou um verdadeiro império com as bonecas que outrora foram apenas princesinhas em seus castelos de plástico. Não era um império pelo tamanho, mas sim pelo valor que Clarice atribuía aquelas pequenices de menina. Sentiu saudades da infância, e de suas amigas. Deixou o império por lá, e foi-se embora do parque, fazendo um caminho diferente do usual. Houve uma mudança brusca de tempo, o céu acizentou-se, e o vento soprou tão forte, que o chapéu de clarice voou para um lugar distante. A neblina encobriu a visão de Clarice, enquanto o ambiente ficava cada vez mais sombrio e gelado. Suas mãos estavam frias e brancas. Foi adentrando naquele pesadelo funéreo, e a única luz que tinha era aquele brilho azul medíocre de seu celular. Naquele momento, e em tantos outros, a tecnologia era inútil. Seguiu uma trilha sinuosa que levou-a até uma casa no lago que aparentava estar vazia. A porta estava destrancada, hesitou, porém olhou para aquela água soltando fumaça, ficou com medo, entrou na casa e bloqueou a porta de madeira com um móvel antigo. Havia um espelho bloqueando a passagem para o outro lado daquela residência, e Clarice viu-se refletida no espelho, sua expressão era de espanto. Ao lado da imagem havia uma névoa branca pequenina que não era possível ser descrita, até aquele momento. Era Clarice quando pequena, baixinha e inocente. A imagem acenou e escreveu com os pequenos dedos no espelho : Todos vocês meros humanos deveriam ter um coração de criança. Acenou outra vez e sumiu daquele lugar para sempre. Clarice seguiu a escuridão e demorou horas pra achar um caminho para os bosques. Era noite, e seu império ainda estava montado no parque, porém, todo desorganizado, remexido, bagunçado. Havia um bilhete na torre mais alta do castelo : Estive por aqui. Juntou todas suas coisas e voltou para sua casa na montanha. Clarice nunca esqueceria aquele dia incomum. Não se esqueceu.

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