Abismo

o dia estava cinzento e frio logo pela manhã, perfeito para se perder no abismo. Havia um nevoeiro sinistro e as pessoas na rua se moviam como fantasmas sombrios. Alguém tinha morrido em Porto Alegre e eu sabia que tinha. Senti uma aura de morte no ar pesado e tempestuoso que entrava pelas janelas podres. Três dias depois veio a confirmação do óbito, uma morte dupla: um parente da mulher e o cachorro, que partiu desta vida enquanto sua dona foi lamentar a morte de outra pessoa. O ar desta vez estava penoso e pesado, parecia um dia de luto, ou só mais um dia comum. Eu já estava vestido de preto, pressentindo o pior. Falamos o mínimo possível sobre a velhice, sobre cachorros, sobre nossos empregos infelizes e sobre pesar. Não havia clima, nem possibilidade de diálogo naquele momento pela manhã. Algum tempo depois, tocava uma música de merda na padaria, parecida com o gosto da comida. O suco tinha gosto de vômito na madrugada dos bebuns e das prostitutas, tinha uma textura tenebrosa. A música depois tocava alta, explodindo nos dois tímpanos, bateria, guitarra, baixo, amplificadores e pedaleiras. Finalmente, desci pela rampa e me deparei com um espelho de cristal verde, que penetrou fundo na escuridão da alma; nele vi o passado, presente e o futuro novamente. Tive medo de tropeçar e cair no abismo, desviei o olhar daquela ilusão maligna cor de esmeralda, saí e não olhei para trás.

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Faith

é o ato de acreditar no que não se pode ver nem tocar, apenas sentir. Tal como a brisa que leva o tempo e carrega as nuvens pro sertão molhar. Tudo que aprendi sobre a fé é esse arcabouço de ideias e crenças que resolvi adotar para mim mesmo. Fui criado e educado na igreja católica, porém seus ensinamentos pouco ou quase nada significam para mim. Eu nunca vou conseguir enxergar a sociedade do jeito que a paróquia insistiu que eu acreditasse ser a ideal. A fé é uma coisa maluca, pois uma vez acreditando nela, é um caminho sem volta. Não confunda fé com religião, pois, por mais que pareçam caminhar juntas, elas caminham por trilhas separadas. Eu não tenho nenhuma religião, mas acredito em algum Deus, São Jorge, Ogum e Oxalá. Sou discípulo de Thor e Odin, e espero alcançar o Valhala quando a hora chegar. A minha fé não aprendi nos livros, não tem nome e muito menos descrição. Acredito no mundo espiritual, porque às vezes escuto vozes vindas de lá (é médium que chama?).

carta vazia

Cada dia nessa cidade faz com que a ideia se construa mais fraca, no lembrete que eu deixei, estava escrito: até felicidade demais mata.

O comportamento das pessoas é um negócio curioso, o ato de conhecê-la não é retrato, é só esboço.

Se tu parar pra refletir demais, acaba dando depressão. Quantos produtos tu tens que vender pra ter a tua tão sonhada comissão?

Sem mencionar esse buraco sujo que se chama faculdade, acaba com sua gana de viver, não importa qual tua idade.

Eu volto pro começo, esqueço o preço, desconheço o preço que as pessoas dão pra esse fenômeno de se afastar. A presença do cigarro e da cerveja é indispensável no bar. Quantos me prometeram lealdade e fugiram quando viram eu me afundar?

Eu to pouco me fudendo pra tua formação acadêmica, pouco me diz o teu mestrado, o teu doutorado.

As palavras de vocês são mais vazias que minhas próprias cartas, que batem no silêncio do teu ego e voltam sem trazer o recado. Olha que estamos apenas em abril.

Globo

Na trocação de ideia atual, a juventude tem por objetivo supremo o sexo. Fala o que não pensa, diz o que não quer, só papo sem nexo. A foto que mostra metade da bunda deixa o povo perplexo. Finge demonstrar interesse, finge gostar de novela, poesia, música antiga, tu imagina um absurdo desse? Sentimento iludido, tendo orgasmo falso; em piso de asfalto quente tu vai querer mesmo andar descalço? Tua falta de sapiência alega um ego frágil, toma o tempo e atenção dos outros alegando carência. Comportamento desprezível, é tão fácil enaltecer simplicidade num hotel 5 estrelas, incrível! Persona non grata, egoísta, estupefata, juventude hipócrita, vê se sai desse mundinho cor de rosa e cria uma personalidade própria!

Esgoto

calçada esburacada, mendigo deitado. bmw que fura o sinal vermelho. motorista que fala o tempo todo no celular. patricinha que dá risada dentro de uma jaguar. no salão tem hora marcada, refém de uma mídia barata que desfila com sua bolsa da Prada. juiz que assina a sentença mas quer discordar. tem medo de raciocinar. playboy mal educado rouba a vaga de alguém que quer estudar. criança que olha pelo retrovisor e sente medo. mauricinho otário passa buzinando pelo meio dos carros. político corrupto, vagabundo nato. rato que sai do esgoto e tira uma lasca do prato. mulher agredida pelo marido que continua no anonimato. colarinho branco que rouba mas o pobre é sempre que paga o pato. governo que finge não ver a mala de dólar no meio do mato. se apegar a essa mulher é uma tremenda cilada. respeito que vai nem sempre volta acabado. se não sente o que diz é melhor permanecer calado. jovem é encontrado morto a tiros, o corpo do pobre coitado foi despejado e encontrado no fundo do esgoto.

Carta Vazia

Ninguém soube me dizer o que havia de errado com o mundo, todos só falavam de política, doenças venéreas, fome e melancolia. Quando alguém acende um cigarro em Los Angeles, uma tonelada de salmão é retirada nos portos do Japão. O que isso tem a ver com tudo que sinto e manifesto? Também não sei, mas há algo que me perturba todos os dias, e às vezes faz-me acordar durante a madrugada, com a testa escorrendo suor e o coração agitado. Gostaria de chamar esse estado da mente/espírito de desencanto do mundo, mas o encanto do mundo já se perdeu faz tempo. Os amantes em Paris tiram fotos superficiais, a ponte dos cadeados já teve excesso de peso, a sua xícara de café esfriou. Quando os dias estão tão cinzas assim, o que é muito comum, vejo tudo assim, descompassado. Vejo um malabarista naquelas bicicletas de uma roda só, um cachorro cego, uma pessoa descalça. Pode fazer pouco, ou nenhum sentido que tudo isso esteja interligado, mas de qual lado nós estamos: dentro de um tanque de guerra pronto para atirar, ou em frente a ele segurando uma flor?

Manifesto

Por mais que eu tente, não consigo planejar tudo que eu faço, não quero ser refém do meu próprio destino. Quero, de vez em quando, ser levado pelos acasos. Sempre tive dentro de mim um espírito aventureiro, não consigo ficar preso a um lugar durante muito tempo, não sou egoísta o suficiente para monopolizar sentimentos e pessoas. Tudo o que sinto e desejo é meu, e também do mundo inteiro.

Dead men tell no riddles

Tenho em mim todos problemas do mundo.

 

inalei aquela fumaça que faz-me tão mal, só para ver-te tão bem. longe dos olhos da solidão, eu vi que não era ninguém. aquelas luzes escuras incumbiram-me de abraçar os enigmas da noite. faz frio e a cerveja no copo do boteco da esquina parece dar vida aos mortos. as luzes dos faróis cegam-me, já não sei para onde mais eu posso olhar. entro por aquela porta depois da descida de paralelepípedos, a caminho do caos e perto do bar. a mulher do balcão atende-me com um sorriso cheio de lascívia, os olhos dela fitam-me tentando decifrar a minha alma, sem sucesso. o tempo congelou naquele instante, como se estivesse em uma cena dos filmes de tarantino. este foi o ato II. o frio aumenta e a cerveja gelada já não faz mais efeito no meu organismo. a música psicodélica ludibria o meu cérebro e o cérebro de todos os presentes naquele ninho demoníaco. as roupas escuras revelavam curvas tendenciosas e perigosíssimas. já não tinha mais controle sobre o meu corpo, que balançava com o ritmo da música e a voz do vocalista da banda que emulava the doors. todas aquelas cores eram tão vivas, e eu só via cadáveres se movendo ao meu redor. até que me ofereceram uma bebida verde que tinha o gosto da morte. morri um pouco por dentro quando o som pareceu cada vez mais alto e chegavam cada vez mais pessoas. ato I.

Intangível

como a chuva que cai lá fora. Música aos ouvidos e o tempo suave que nunca mais voltou. Assim são as coisas mais bonitas da vida: intangíveis. O vento que sopra e esfria a noite, o calor humano que esquenta as manhãs mais frias. O sorriso daquela mulher quando enxerga aquele homem, espanta, arrepia. A vida vai passando sem que a gente perceba , juntando todos os cacos e coisas que julgamos ser imprescindíveis. Sem saber que tudo que digo aqui é intangível, sem motivo e sem explicação. Sem esperar que alguém leia ou ache interessante.

Intangível.

Cosmos

Estavam os dois, ele aqui, ela acolá, separados por um cosmos indivisível. Perdidos no espaço. Cada molécula de si anseia pela presença do outro, como dois pólos magnéticos esperando-se que vão galvanizar. Cada um olhando por uma janela, esperando pela estrela cadente do outro pelo campo visual passar. Não podiam estar mais juntos em meio a tanta solidão. Às vezes é tão bom ser só, e ter autonomia de paz, mente e espírito, mas corro, grito e busco confirmação e compreensão, bipolarizado entre perceber que tantos caminhos levam à solidão, e só um me leva até você. O mundo anda tão triste, mas o encanto não se perdeu. O poeta confirmou. E eu compreendi.

Alive

Look outside, it’s been the same everyday. The air that you breath, the rain that you take. The bus that leads you to places. I feel alive, the corpses have emerged from their coffins. I walk, and i dream, and i feel, and i learn and i forget. People give me nauseas, my shoes got wet. Forgot my umbrella. I step on the grass, i take detours from the dog shit. There are so many beggars on the street. And i sleep, and i dream again, and i wake and i keep going. Steady and back to the darkness where everything belongs.

These dreams

Lately I’m having these dreams that keep me up at night. Last night I dreamed I was a doctor and I gave birth to an unborn child, I knew the baby’s mother, whom I’ve known for years. The other night I dreamed I was driving a car on a highway with a lady I deeply loved in the past, and a vicious truck hit us and we fell off a cliff causing both of us to get killed. Today I saw her and she was dressed up entirely in black, as she was griefing; she never wears black clothes. My head got twisted up real bad, as if someone was playing games within my mind. Maybe I’m just delusional but these are the kind of dreams that keep me up until dawn. If somebody visits me tonight, let me save some time to hide my soul. Sincerely, p.

Makes me Proud

My sister got a certificate a couple of weeks ago, I can’t say how immensely that made me feel proud. She was elegant in her dress, like she was going to a paris concert in the 70’s. She was astonishing. I wish I could give her a strong hug on that special date. I can’t believe how time has passed as she became such an incredible lady. I wonder if I ever made anything right in my life, but I guess I’ll have to keep my eyes on the distance. The world is yours to conquer, sis, just chase it. I’m very proud of you.

Dearly, big brother.

Hazy Days

“Mr. Page in canvas walks on the sidelines without making a single sound.”

The streets smell like piss and there is no place for the homeless. These hazy days make jokes of no one. Every morning feels like a nightmare, even though Page has a good life, sometimes it’s just a bless from the skies to stay inside avoiding the rain. Many cars are roaming on the sideways with motorcycles and bus just behind. Oh yeah, don’t forget the bikers and the skaters. His long time school known fellas and ladies are all set up with a made life, while he is lost in time trying to find his own directions. That makes him fucking depressive and unfaithful but he just goes on the rhythim of the tides as the wind blows his hazy days.

to be continued…

When it rains it pours

”Last night I dreamed I was you.”

I was walking through a thematic park with roller coasters and white shoes. The sun was high and the weather was hot. I could see on other people eyes that I had something in me, like a spirit or a ghost of you. You were happy as everyone. Everything was so vivid and clear, I couldn’t notice if was not for the people stares. There was a time that life was so alive. There was a time that voices could keep me warm at night. Which or which or who is who? I am me or who are you? Electric forces always go into two different directions, positive or negative. I was thunder, you were lightning. Sparks between the two forces became fire and got ourselves burned into the sky. There is a place that is only four hundred miles away. A place where the road is all covered in rain and there is something hidden in the water. How many times have you crossed that bridge? You see me but I don’t see you, we both have someone now. The ghost of you in me sees the happiness in you, and perhaps I teached something for you. You were a sister to me and I was a brother for you, as simple as it looks, family is more complicated than it seems. There are things which are better left unsaid, and maybe a picture is not the best way to say goodbye to someone. Last night I dreamed I was you, as you were covered in blanks to be warm at night. I am all that is lost and don’t want to be found. I am all that is forgotten and forever. You will always be the sister in me. Wish I could be more than a ghost in you.

 

To give Birth

Era uma daquelas noite frias em que o vento corta a alma e as folhas voam de forma selvagem pelas ruas. Já era tarde da noite, e centenas de pessoas esperavam para entrar naquele buraco profundo de profanação, onde eu e você também adentramos. Tudo lá dentro era uma mistura de cores e sabores e sons, as luzes me desnorteavam, e eu mal enxergava os meus passos no chão. Nos perdemos, meu amigo desapareceu, e sua amiga também. Corredores lotados de gente, tudo branco. Azul, vermelho e neon. Não me lembro muito depois daqui, acredito que você também não. Os anos passaram e você mudou seu cabelo de cor várias vezes, ruivo, loiro, curto, mexas, e por fim natural. Em várias peças de teatro você atuou, nem tudo mudou. Talvez muito tenha mudado. Não só seu cabelo e a sua personalidade, mas o seu corpo também. Hoje ele abriga uma esperança de luz em meio a sua escuridão: Helena. Um nome que eu sempre quis dar a minha futura filha. As águas de lavanda cobrem seu corpo na banheira cheia de óleos e pétalas de flores, e relaxam você e o bebê que levemente da socos e chutes no seu interior quase que gritando para poder sair. A minuciosa vontade de fugir do seu corpo e vir para esse mundo de caos e solidão. Um mundo porém, dela, onde a noite é só o vento que entra pela janela e  esconde seus perigos mais insanos nas ruas vazias em outra dimensão. O mundo precisa de luz, tanto quanto a vida de uma pessoa, e às vezes o nascimento de uma criança é tudo que pode lavar as tristezas e impurezas pra longe, tal como as águas de lavanda lavaram a ti. Todas emoções ruins e tudo que há de negativo parece desaparecer por um instante quando uma alma cheia de luz vem para o mundo. Que você seja luz para seus pais e luz para o mundo, Helena.

Só de você estar prestes a emergir, fez-se o mundo sorrir por um momento.

It’s been a while

I look to the past and I see footsteps that aren’t mine. They are nothing but dust in the shadows. When my image reflects in the mirror, I see an individual different than me. Different than I was 4 years ago. People I met and places I’ve been have become distant memories forgotten in time. Emotions come and go like a blink of an eye. Sometimes when my thoughts are lost and naive I bring to life sparkles which I desire to be dead. They made me sick, sometimes they still do. In the spirals of life and tragedy the sun is shining and the roads still go, as if they will never have an end.

Redemoinho

As vidas e as mentes dos seres humanos não passam de grandes redemoinhos. Não há questão de ser, se não entender e ver para crer. Todo pensamento é um mecanismo em intensa atividade cerebral, igual a uma fábrica de carros que aos poucos troca a força braçal pela inteligência dos robôs. Cada neurônio é uma célula distante que voa com o tempo, e vai pra tão longe. Tantas sintaxes entre a ponta de um e o começo do outro. Milésimos de segundo. O ser humano tenta ter razões que a própria razão desconhece. Ah, o tempo, tudo não passa de um mero gracejo do tempo. Quando percebem que teria dado tempo, já foi tarde demais.

A mente de um ser humano é doentia às vezes, e disso tenho medo. Medo de que o medo seja também um redemoinho.

Confesso

eu queria te levar pra conhecer todas ilhas do pacífico, o mar parece tão bonito visto daqui. Queria te levar pra conhecer todos os países do continente europeu, a torre Eiffel parece tão bonita vista daqui (mesmo eu não gostando da França). Queria te dar todos presentes que eu sempre penso em te dar, a vitrine é tão bonita vista daqui. Queria te levar nos restaurantes mais bonitos, que provavelmente seriam os mais caros também. Queria te comprar flores toda semana, o Jardim Botânico é tão bonito visto daqui. Quero. Infelizmente não podemos ter tudo, e sou tão feliz por ter você (…)

(…) Mas é que o tempo anda tão cinza e às vezes sinto uma frustração.

The Old Man and his Beer

Era parte da manhã quando avistei este senhorzinho sozinho sentado ali, com um copo de cerveja cheia de espuma colocado próximo ao braço direito. Eu olhei para ele e ele me observou de volta, com aqueles olhos de lobo preocupado. Pude ver um vazio naquele olhar, um vazio de quem já muito viveu e nada mais parece entreter. A cerveja? Um bom pretexto para aquele domingo de manhã. Com os olhos de lobo ele me estudou, e também viu um olhar distante, mas que estava apenas a alguns metros dali. Depois mudei de foco, assustado, preocupado com o que aquele senhor podia pensar de mim. A imagem não sai da cabeça, e aquele copo de cerveja cristalina também não.

Cataclisma

Ao som de um cavaquinho numa manhã cinzenta surge essa história. Viajar por pesadelos interestelares coletando tampinhas de garrafa e colocando barquinhos no oceano. Dione, Hermes e Dimitrov. Por onde andam estes caminhos escuros que não tem começo nem fim, apenas um rastro de terra que vai sumindo com o sol no horizonte. Nessa floresta a matemática e a física de nada servem, e tudo que você tem é tudo aquilo que você perdeu.

Uma fogueira naquela noite no vazio, o vento tenta apagar as brasas e mandar uma mensagem dizendo que não somos bem vindos ali. Nem eu, que inventei esta história. No coração da natureza o sangue que circula é verde e marrom, cor das folhas e dos troncos das árvores. A floresta é imensa e a mente do homem é tão pequena. Números e mais números se juntam querendo descobrir a verdade absoluta. Criar um objeto ou uma ideia que domine o mundo e torne todos nós vassalos de um seleto grupo de anciões da ciência e do dinheiro.

Aqui não importa se é dia ou noite, ou se trouxestes um mapa com medo de se perder. O essencial é ser e se perder. Seguir o fluxo dos peixes nas correntes. O fim de uma jornada sempre é o começo de outra, mesmo que não seja nossa.

Dione acorda de um pesadelo e o fogo ainda está aceso. A barraca e todos pertences sumiram, incluindo Hermes e Dimitrov. Eram dela, possessiva e dominadora como sempre, ela se vê sozinha ali naquela mata fechada. Os caminhos são tão incertos (e a única certeza é: basta ir); e eles vão por ali, onde não há canoas nem pontos turísticos. Pequenas frutas são apanhadas no caminho e meia dúzia de cervos olham desconfiados para aqueles estranhos.

Em algum lugar do mundo a Segunda guerra mundial ainda não acabou, e em outros lugares não muito distantes a Terceira está apenas começando. Trouxeram tanto conhecimento e notas de cem guardadas em malas, mas não tinham o que fazer com nada daquilo. Trouxeram títulos de doutorado mas não tinham a quem expô-lo.

Cito a floresta, mas podia ser um deserto, uma região coberta por gelo, o interior de um vulcão, ou ainda melhor, uma estrada congestionada, ou um furacão no meio da cidade. As cartas estão nas mesa, quem será o próximo a sumir no Projeto Aqui?

Existe uma luz do lado de dentro da janela

Estive pensando nessa frase ao longo do dia, afinal, a luz vem de dentro ou de fora da janela? Depende de que lado tu estás, a luz exterior pra um pode ser a luz interior pra outro. Existe uma luz além do que se vê. Tenho certeza que sim. Só não posso terminar meu raciocínio sobre isso agora pois há muito trabalho a fazer. Números e mais números na contabilidade. Eterno pesadelo e profunda maldição.

Dezembro

Acreditar que tudo dará certo, que tudo ficará bem. Acreditar em algo além do que se vê. Combater nossos demônios interiores não é tão simples assim. Nunca sabemos qual nos puxa pra baixo e qual sustenta nosso edifício inteiro e nos motiva a continuar. Algumas coisas nunca mudam, pessoas também. É erro meu acharem que cabeças vazias tem solução, só absorvem aquilo que estão dispostas a absorver. Como uma erva daninha que mata uma outra planta sem perceber. Rouba toda sua luz. Rouba toda minha luz. Cansei de ser astro iluminado, quero ser luz. Iluminar. Ter brilho próprio, buscar meu lugar junto ao sol. Ser sol. Se os pássaros voam de estação em estação procurando o melhor lugar para eles, pergunto-me porque estou no mesmo lugar até hoje? Asas. quero voar pra longe daqui, longe desse inferno que um dia chamei de lar. Meu lar é onde você está, e se estou contigo estou em casa. Simples como uma cantiga de ninar. Simples como te amar. Simples como os pássaros gostam de voar.

Janelas

A parte mais difícil é sempre começar um texto, o resto parece que vai por inércia ou osmose. Pra falar de ti não é diferente, nunca sei por qual elogio começo, mas descrever algumas coisas que te fazem tão única parece ser um ótimo começo. Cada momento contigo é único, tudo que temos um pelo outro torna tudo isso ainda mais especial. Quis evitar a todo custo falar sobre você indo embora, mas quando os dias passam um atrás do outro e o tempo voa, é necessário enfrentar alguns medos. Sempre tive medo desse momento que passou hoje: ver você partir. O máximo de tempo possível eu quis passar com você. O coração já estava apertado faz um tempo, e hoje eu segurei para não chorar quando te vi subir o ônibus. As lágrimas ameaçaram cair, mas não quis chorar ali na frente de todo mundo, algo tão nosso, espalhado para muitos estranhos verem. Subi na plataforma, e mesmo assim não consegui ver o ônibus partir. Talvez você já tivesse ido, e não era só você, parece que meu coração foi junto. Atravessei a passarela que ligava os blocos estaduais e interestaduais com os olhos úmidos, mas não chorei. Muitas pessoas olhavam para mim tentando decifrar o que tinha ocorrido, mas só você sabe o que eu senti ali, mesmo sem ter visto. A rodoviária estava vazia, e mais vazio ainda estava meu coração. Às vezes penso que a vida é injusta, une dois amantes só para separá-los depois, mesmo que seja por um período relativamente curto de tempo. Tudo fica sem graça sem você aqui, cinza, igual o dia de hoje. Já deveria ter me acostumado com certas coisas, mas ainda não sei me despedir direito. ”Quando você menos esperar, a gente já tá junto de novo.” Foi tudo que eu consegui pensar na hora. E é o que eu senti ali foi do fundo do coração. Logo logo vamos estar juntos outra vez e há ”males” que vem para o bem. Não é de todo ruim, o mundo não gira só ao meu redor, mas bem que podia, assim teria sua atenção só para mim. Você despertou o melhor de mim, e o ”eu” antes de você já nem lembro mais quem foi. Só passei a saber quem era depois de ter te conhecido. Só tenho agradecer por tudo que você é e faz por mim. Contando os dias pra te ver outra vez. ”Amizade é importante, mas o amor escancara a tampa.” Te amo, te amo, te amo. E Muito!

Saudade gigante já, baby.

”Sem graça eu me vejo aqui, pela janela ver você partir.”

Letter

That’s why i love you. That’s why i hold you, dear.” – Interpol.

My heart beats faster when you are not around, but it also beats faster while you are here. It seems it will come out of my mouth when i afraid. That’s why i hold you so tight, so you can never leave. The best part of me is the one with you in it. You take the best of me and i give you my best. I denied myself so many times, but now i can’t hide my feelings anymore. I am in deeply in love with you. You gave a meaning to my life, and i would do for you all the things everyone never did for me. Just there aren’t words to explain how much you mean to me. I must have said this a hundred times, but just don’t forget it. It is so true, nothing in this world could be more true than this and the feelings i have for you. You make me a better person, and we are better when we are together. I always felt so alone, and you complete like jeans and a belt. We know ourselves so well, but you know me better than i know myself. That’s all i know. I don’t have faith in myself so i try to control myself the most i can, so i don’t show you how insecure i am. It’s just because i never found someone like you, and i don’t wanna lose you for nothing in this world. I don’t know why i’m writing this in english, but it’s just more cute than if it was in portuguese, that’s for sure. In your arms i feel like home and i do like to have a second home. I love the way you smile when you look at me. I love the way you look at me and think of many things i have no idea. I love when we are together and the world seems to spin slowly. I love to spend time with you. I am lost when you are not around. I love when you hug me so tight and kiss me smoothly. I love everything about you. I love to love you. I don’t want anybody else. All i want is you.

”Love is old, love is new. Love is all, love is you.” – The Beatles

Chave

Engraçado como o passar do tempo muda alguns sentimentos. Às vezes me questiono, em sextas feiras assim, chuvosas, se algum dia eles foram reais. Ou se foram só algo que procurei em vão e não encontrei em determinado ponto da minha vida. Talvez até foram, mas isso de nada vale agora. Páginas passadas, amareladas e se desfazendo lentamente com o tempo. A felicidade mora ao lado. De que lado da rua escrevi meus diários? Procrastinação, música e silêncio. Acabaram em textos. Coisas ruins e boas. Levo só as boas, se houver, é claro. A chuva cai e o meu pensamento pega o primeiro vôo pra lugar algum. A volatilidade de pseudo sentimentos e ideias distorcidas me assusta. Um ano atrás nunca imaginei o modo que minha vida estaria agora, um ano depois. O amanhã já vira passado antes de ser passado. Aos dias e anos perdidos, um brinde. Tim tim. Fiz história pro mundo, fiz liquidação pras vitrines, fiz minha própria biblioteca. A mágica de escrever é falar sobre tudo e o leitor não saber qual parte foi real ou não. Lá fora choveu o dia todo, e nada parece estar no lugar certo quando você está longe daqui. Guardei a sua chave.

Telégrafo

Parece simples escrever sobre algo que queremos que aconteça. Mas, quando se vive tudo, ou grande parte do que sempre se quis, a vida parece ficar um pouco menos complicada e menos virada do avesso. De certa forma, peças estranhas se encaixam, e se forma um quebra cabeça nunca antes imaginado. Os dias tem seus modos estranhos de nos dar lições. Aprendo cada dia contigo, e cada instante é sempre, nunca mais outra vez. Você é como mágica, quando menos espero, algo surpreendente acontece e me faz ficar surpreso. Se me perguntarem se eu acredito em mágica, minha resposta vai ser que ainda acredito. Quando a gente percebe que conseguiu algo, é aí que cai a ficha do quanto temos a perder. Quando meu Silêncio sussurra, o vento traz um medo que eu tento esquecer. Faz ecos, me intimida. A efemeridade da vida e dos momentos me assusta, tudo que hoje está aqui, amanhã pode não estar mais. Mas deixa isso pra lá, quando começa a ficar reflexivo demais é hora de voltar a superfície. O que importa é o dia de hoje, eu e tu aqui. Você me entende mesmo quando não tenho nada a dizer. Com um olhar entende o que eu tento esconder. Com um sorriso me faz querer esquecer tudo de ruim. No meu mundo bagunçado, parece que só você é capaz de organizar. Já percebeu como é estranho confundir o barulho do ventilador com o som da chuva caindo. O mundo explodiu lá fora, e só no seu abraço e na sua voz encontro Paz. Cada instante contigo é único e se pudesse viveria cada um tudo outra vez. Sempre inventamos novos apelidos. Invento planos pra nós dois só pra fugir da rotina. Ser feliz um pouco ali fora, aqui é um buraco traiçoeiro. Admiro quem sabe viver sem atrapalhar a felicidade dos outros. Deve ser por isso que quero fugir contigo daqui. Pra onde ninguém sabe, só ir. Passagem só de ida, quem sabe pra nunca mais voltar. Não gosto de pensar no futuro, mas ele é um fantasma que me amedronta e cutuca. Faço o melhor que posso pra focar só no aqui e no agora. O hoje é você e eu, em cada sorriso, beijo, abraço, segurar de mãos, brincadeira, saída, risada, filme, música, série, almoço, piada. Tudo. O resto a gente inventa. Raríssimo encontrar o que nós temos, e sou eternamente grato por tudo que nós já vivemos e passamos até aqui. Pode ter certeza que ainda tem muito mais coisas boas por vir. Hoje é tão difícil ter alguém assim, a gente nunca sabe onde termina a verdade de um e começa a mentira do outro. Contigo é tudo real, tudo certeza, pele, sangue, suor e lágrimas. Por pessoas como você que eu ainda vejo luz no meu caminho e para o mundo, e enquanto eu tiver você eu nunca vou me sentir só. Day by day, always and forever.

Blues

Poeira e vidro habitam em tudo. São apenas jovem vagando pela noite. Baby, eu te disse: apaixonar-se é suicídio lento, temeroso. Escuta os passos? É só o amor andando lentamente e saindo de casa. Baby, são só velas vazias e cheias de vento. Vamos embora daqui, hoje a noite não tem luar e nosso lugar é em qualquer lugar. Baby, o mundo é tão grande e ao mesmo tempo tão minúsculo em galáxias distantes. Me disseram que a vida é mais bela com Blues e Whisky. Por que não tomas um copo? – Duas pedras de gelo, por favor. Foi o que ela disse. Cabelo solto, calça de renda e os cabelos negros da cor do céu de outubro. Me olhou com aquela cara perigosa de quem sabe exatamente onde quer chegar. Ela disse: Baby, silêncio quando eu falo, olhe fixamente para mim. Vou hipnotizar você. A vida na cidade é uma festa sem hora pra acabar. Os moribundos estão pelas ruas, os monstros se soltam de dentro de nós. Baby, eu conheço os quatro cantos da cidade, lugares que não deveria e lugares que você não deveria estar. Acende o cigarro e faz careta como quem sabe que é errado mas faz assim mesmo. – Tem um isqueiro pra emprestar? Aquele gesto típico de isqueiro imaginário e um riso frouxo logo em seguida. Blues e Whisky, é tudo que precisamos pra hoje a noite. Baby, só essa noite.

Muros

Caminho pelas ruas desertas da cidade com o coração dividido ao meio. Metade da parte que quer e a outra metade que tem medo de ser atingida novamente. Os dias vem e vão, e nenhum dia parece ser diferente do outro. Como se fossem produtos de longa escala feitos numa fábrica clandestina. A brisa quente à noite e durante o dia, anuncia que um verão não vai tardar a aparecer. O sol escaldante arde a pele, e tenta cicatrizar alguns ferimentos que não saram jamais. O medo já não assusta, mas aterroriza e também faz sorrir. O medo de perder algo que nunca se teve, e que se teve na imaginação por apenas algum momento. Fantasmas de alguém que esteve ali. Os pensamentos vagam como buzinas de carros na avenida. Olhos nos olhos, o barulho já parece distante dali. Toque, segredos e suspiros se misturam como um Manguebeat pernambucano. Meus sonhos de pierrot em degradé. Minhas ideias malucas em Si Bemol. A vida na cidade tem seus trejeitos. Em cada edifício uma tendência surge. Em cada esquina uma ideia morre. Os gatos correm pelos muros, me pergunto o que eles estão fazendo por ali. Visto de cima tudo parece formiguinhas enfileiradas. Visto de longe, tudo parece alcançar o horizonte. Visto de perto, muitas coisas ganham ou perdem o encanto. Viajo com cartas na mão, naipes diferentes e sequências fora de ordem. Passos descompassados que tentam desviar dos buracos. Cada dia tem sido uma viagem só de ida, mas quando chega a noite desejos desejam que o dia possa voltar. E não volta mais. Palavras perdidas ao vento, nem tudo que vai encontra o que deixou.

Submundo

De repente tudo ao meu redor começou a girar freneticamente, e o tempo pareceu acelerar ali naquele infinito particular. Pressão de todos os lados, meu cérebro parece uma panela de pressão esquecida com o fogo aceso, prestes a explodir. Adentrei no meu próprio calabouço e me esqueci onde ficava a saída. Dia após dia, quanto mais eu avanço, mais o caminho escurece. Sigo com uma pequena vela na mão e algumas outras no bolso. Não sei o que vai acontecer quando todas ceras derreterem. Quando todos caminhos parecem confusos ou errados, tudo o que resta é seguir adiante. Aguardar o dia que no meio de tantas trevas vai aparecer um resquício de luz. Mentalizar que a pior escravidão é aquela onde estamos livres e presos a algo que não sabemos realmente que está ali. Uma tal de Esperança. Tudo que não passa de um desejo, foge do nosso controle. Já viu um pássaro a céu aberto permanecer sempre no mesmo lugar? (…)